sábado, 3 de maio de 2008

Meu Nome É Jack.

( Nelson Magalhães Filho. Da série Mulheres, 2004-2005, mista s/ papel, 70 x 50 cm. )

Meu nome é Jack.
Eu bem que poderia ser o rapaz mais melancólico de cidade das sombras, mas ainda dava para ouvir " Hey, that's no way to say goodbye " na voz cavernosa de Leonard Cohen e ficar comovido com as canções que Tarcísio Buenas escutava bem alto naquele inverno doloroso, depois de comer algumas cerejas e se converter em charcos de vodka barata. Mas essa noite lembro-me apenas das muitas seringas manchadas de um líquido que circula em abundância por estas tristes ruas impulsionado pelos movimentos do coração, tá ligado? Solitude áspera, cara. Peguei no livro " Contos de Agosto " de Pablo Sales e dei uma lida rápida. Não conheci nenhuma Helena. Faz 18 anos que toquei um Béla Bartók no piano de Jane.
Pensar nessas coisas me dá uma aflição intensa, mesmo quando tento pintar figuras rústicas em panos rotos de aninhagem para aliviar as dores que sempre voltam. Mas só que essa chuva vem de novo e com ela sofro desesperadamente. Há muito tempo assisti " As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant ". Mas já faz mais de 20 anos que morreu Fassbinder. Por isso coloco o cd do grupo Suicide justamente na canção " Frankie Teardrop ". Ontem cheguei de trem. É uma cidade muito distante. Trouxe apenas umas roupas e o velho " Paradiso " do Lezama Lima. Agora abro uma infinidade de envelopes e engulo os comprimidos com uma lata quente de uma cerveja qualquer.
Ainda tenho tempo de para mais uma pontada dolorosa em meu braço esquerdo cheio de uns desenhos esquisitos feitos pela Carol:
Ela me contou que seu passa-tempo favorito era se atrever a beijar teiús e uivar perante a presença dos cães, vestir uma camisola transparente, dormir ao relento, por os olhos nas frestas. Zurrar barbárie.

Nelson Magalhães Filho é escritor e artista plástico.
http://anjobaldio.blogspot.com/
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