quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Caio Fernando Abreu.

Ando com saudades de Caio Fernando. De sua obra. Dos tempos em que descobri-lo. Foi através da peça teatral Companheiro, um diálogo com dois personagens em crise de relacionamento. A peça foi encenada pelos atores Hild Senna e Nelson Magalhães Filho. A direção foi dos próprios atores. Hoje, meus amigos.

A Casa da Cultura Galeno D'Avelírio era o cenário de muitas descobertas e de boas novas companhias. Foi lá que descobri não só Caio Fernando, mas muitos escritores que mexeram muito comigo. Júlio Cortázar foi outra grande descoberta. Escrevo sobre ele depois.

A obra de Caio Fernando fala sobre sexo, medo, morte, solidão. Seus escritos entravam em minha mente como uma luva, se encaixando perfeitamente em meus neurônios. O primeiro livro que li foi Os Dragões Não Conhecem O Paraíso, que havia sido lançado há pouco tempo. Era 1990 e tinha o conto Dama da Noite.

Uma mulher da noite relatando suas vivências para um jovem playboy bem nascido de um bairro classe média alta. Iguais a este, conhecia vários. Já a dama da noite, foi a primeira, e nunca conheci uma igual a ela. A dama machucava o playboy com seus relatos e ele nem sentia. Um burguês babaca, babando para sair com a dama da noite e poder contar para seus amiguinhos a aventura que havia feito com uma mulher bonita e gostosona.

Logo fiz amizade com os atores e eles me emprestaram todos os livros que tinham em sua coleção. O Ovo Apunhalado, Morangos Mofados, Por Onde Andará Dulce Veiga... foram tantos!

Uma escrita econômica, firme e certeira. Daquelas que te toca sem muitos rodeios.

A Casa da Cultura era um verdadeiro oásis na pacata Cruz das Almas. Bons momentos, belas recordações e aqui estou homenageando este escritor gaúcho que completaria 60 anos em 12 de setembro deste ano. Caio faleceu em 25 de fevereiro de 1996, vítima da Aids.

Está tudo planejado:

se amanhã o dia for cinzento,

se houver chuva

ou se houver vento,

se eu estiver cansado

dessa antiga melancolia

cinza fria

sobre as coisas

conhecidas pela casa

a mesa posta

e gasta

está tudo planejado

apago as luzes, no escuro

e abro o gás

de-fi-ni-ti-va-men-te

ou então

visto minhas calças vermelhas

e procuro uma festa

onde possa dançar rock

até cair.

Texto inédito, de maio de 1982. Publicado na revista Bravo de fevereiro de 2006.

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