quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Obra-Prima.

Por Caio Fernando Abreu.

O Estado de São Paulo, 23/4/87.

O lançamento do Nau confirma aquela sensação de que há, mesmo, algo novo no ar.
Para quem conhece os discos dos grupos Fellini, Violeta de Outono, Patife band, ou espera as gravações do Luni, de Os Mulheres Negras, ou das cantoras como Ná Ozetti, Suzana Salles, Caludia Wonder, Laura Finocchiaro - o lançamento do Nau (CBS) deixa bem claro que alguma coisa está acontecendo na música paulistana. Uma coisa nova e vigorosa, sintonizada ao mesmo tempo com o pop internacional e brasileiro - nesse caminho capaz de ligar The Smiths a Rita Lee, Cazuza e Talking Heads. Saídos dos porões do underground da cidade, recém eles começaram a chegar às gravadoras. Por parte destas, prudentemente, é claro. Por parte deles, de peito aberto.
Peito aberto porque trazem uma nova estética. Pouco importa que essa estética seja ou não comercial - importa mais jogar para fora a voz dessa geração feita jovem no meio da nuvem de Chernobyl e do vírus da Aids. Pouco importa ainda se essa estética (pós-tudo?) for cansada. O disco do nau é lindo - e transpira cansaço. seja através das letras ("Nos perdemos entre contos/ poeira de máquinas/ multidões se atropelando/ num mundo sem espaço" - em Novos Pesadelos; ou "A vida passa num piscar de olhos/ a vida pára num sinal escuro/ e eu queria ter as soluções" - em Balada) ou das guitarras de Zique, do contrabaixo de Beto Birger e a bateria de Mauro Sanchez. Não um cansaço apático, mas cheio de lucidez e ansiedade criativa: "Eu quero beber/ tirar minha roupa mostrar tudo/ tudo vir a saber" em O Que Eu Quero é Você.
Do meio do som limpo, preciso, sensual (remetendo às vezes tanto aos bons solos de guitarra dos anos 60 quanto àquele som aparentemente monótono dos Smiths) - emerge a voz gemida de Vange Leonel. E no pós-tudo dessa estética marcada pelo neo-existencialismo dark, vale imitar com bom humor a voz de Vandreléia ( em Bom Sonho) ou dilacerar a garganta feito a louca musa Janis Joplin. Apoiada no feeling do blues, nesse repertório que passeia pelo funk, pelo heavy-metal, ou pela valsa, incorporando todas as influências, Vange pode cuspir palavras como uma roqueira ou sussurrar macio feito uma Maísa renascida meio punk. Talvez ela seja a melhor intérprete dessa nova geração - e para concordar com isso basta ouvir o longo lamento de Nada.
Talvez esse primeiro trabalho do Nau se ressinta um pouco da repetição. Não é aquele tipo de disco que você vira e revira na vitrola. Angustia. Há sempre um clima imposto, geralmente dramático (como na linda Linha Esticada, de Laura Finocchiaro e Cilmara Bedaque) e nem sempre suportável. Mas o vigor e a sinceridade explosiva de Zique, Beto, Mauro e principalmente de Vange Leonel tornam o nau obrigatório. No mínimo, para quem quiser confirmar aquela desconfiança de que tem, mesmo, algo acontecendo.
Este texto que publico agora, é mais uma homenagem que faço a Caio Fernando. Feliz daquele que já tenha ouvido esta obra-prima da música.
O primeiro disco do Nau pegou-me de surpresa a exatos dezesseis anos atrás quando ouvi pela primeira vez.
Me considero um felizardo, ao lado de Tony Lopes e de Nelsinho Magalhães, outros grandes admiradores dessa extinta grande banda.
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