domingo, 28 de setembro de 2008

Santiago Do Iguape.

( A pesca é a principal fonte de renda da região ).
Santiago do Iguape é um município praticamente abandonado pelas autoridades. Distrito de Cachoeira, embora mais próxima de Santo Amaro da Purificação, localizado às margens do rio Paraguaçu, é habitado por descendentes de escravos vindos da África em fins do século dezenove.

Seus habitantes vivem na miséria. O local é de difícil acesso no inverno devido ao solo massapê. As pessoas deslocam-se de pé até o asfalto para vender peixes, carangueijos, ostras. A pesca é a maior fonte de renda da região, sendo que são obrigadas a tomar banho devido a lama acumulada no trajeto.

As casas não têm energia elétrica. Geladeira, só a gás. Fogão, a lenha. Mulheres dão à luz dentro de suas casas ou, quando a maré favorece o deslocamento, na maternidade de Santo Amaro e, às vezes, o parto é feito no caminho dentro das canoas.

A região é arrodeada por casas de candomblé. Tambores ecoam forte pelo vale afora.

Os habitantes vivem numa frustração muito grande por causa do roubo da santa. Esta, por medida de segurança, era guardada em uma das casas dos moradores após as missas. E foi, justamente na casa de um deles, que ela foi roubada.

Depois desse triste episódio, muitos deles deixaram suas casas e foram viver em outras cidades, inclusive Salvador, de onde nunca mais retornaram.

Alguns moradores acreditam no retorno da santa.

Americano, um antigo morador do local, não sonha. Mas tem fé que um dia ela volte para resolver os problemas da região.

Verdadeira crença no poder da imagem.

Esta visita que fiz a Santiago do Iguape, em 1998, com uma equipe de profissionais e amigos, foi com o intuito de fazer um estudo do estilo de vida dos habitantes para daí, fazermos um curta-metragem onde faria o papel de um missionário que chegaria na cidade para trazer esperanças e tentar resolver alguns problemas da população.

Foram eles: Nelson Magalhães, Luciano Fraga, Waldick Medina e Zé de Rocha.

Infelizmente, não houve patrocinadores e o projeto não saiu do papel.

Mas uma coisa que instigou a equipe foi o depoimento de Americano, o homem que não sonha.

Bebemos ao final da viagem e questionamos muito este assunto.

Como é que pode existir um ser humano na face da terra que não sonha?

Seu semblante era de muito sofrimento. Vi com muita clareza, um ser distante do mundo ao qual estou acostumado a viver.

Dissemos a ele que nossa filmadora era uma câmera de tirar retrato, devido tal desconfiança com aquele aparelho em sua frente. Só assim ele permitiu que filmássemos o seu depoimento.

Fiquei realmente comovido e acabei chorando. Seria meu primeiro papel diante das câmeras que, infelizmente, não aconteceu.

Quero agradecer ao meu amigo Luciano Fraga por lembrar-me de alguns acontecimentos esquecidos em minha memória.
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