sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Quatro Discos Para Este Fim De Semana.

Tindersticks - The Hungry Saw. A banda de Stuart Staples, vocal e letrista dos Tindersticks, banda de Nottingham, Inglaterra, volta em grande forma com o sétimo álbum de carreira, que, in my opinion, está entre os três melhores trabalhos desde que começaram nos longínquos anos noventa.
O som do Tindersticks é para ser ouvido com muita atenção e sem pressa. Com vocal soturno, casando perfeitamente com um som denso e atmosférico, a banda de Staples encontra algum parentesco quando comparado ao mestre da cavernas, o australiano Nick Cave, um dos preferidos do On The Rocks.
The hungry saw foi lançado no primeiro semestre deste ano, mas nunca é tarde para indicar mais um belo álbum destes craques da melancolia.


Glasvegas. Este é o primeiro e homônimo álbum dos escoceses do Glasvegas. Surgiram em 2001, ao longo destes anos, lançaram seis compactos após serem descobertos por Alan McGhee - fundador do selo Creation Records - lendário por lançar bandas importantes do rock britânico, como: Jesus and Mary Chain, My Bloody Valentine e Oasis.
No som do Glasvegas, que vem despertando a curiosidade da crítica britânica, há um misto de Phil Spector, The Clash e a urgência punk surgido no final dos anos setenta, e a microfonia dos Reid Bros.
Uma grata surpresa! Quero agradecer ao meu amigo Tinho Safira pela apresentação destes caras que vão dar muito o que falar. Só falta agora marcarmos um encontro etílico ao som do Glasvegas.


Taken By Trees - Open Field (2007). O único não lançamento deste pacote, é o mais novo projeto da menina Victoria Bergsman, que deu um tempo com os Concretes, sua banda formada na Suécia há alguns anos atrás.
Victoria encantou-me com sua voz doce e delicada, há uns dias atrás quando estava pesquisando na web. Deparei-me com a capa do seu único álbum que me chamou atenção.
De instrumental simples e bem acabado, poderia ter entrado em minha lista de melhores de 2007 caso tivesse ouvido na época.
Victoria já colaborou com seus conterrâneos do Peter, Björn and John. Foi Björn que produziu suas primeiras demo tapes.

Oasis - Dig Out Your Soul. Este é o mais novo petardo dos irmãos Gallagher, que, juro, pensei que não fossem fazer nada de bom depois do resultado do anterior Don't believe the truth (2005), um álbum morno que deixou muito a desejar, não lembrando nem um pouco clássicos do passado, como: Definitely maybe (1994) e (What's the story) morning glory? (1996).
Engraçado é que comecei a gostar de Don't believe... depois que ouvi Dig out your soul, que parece continuação do disco anterior, só que melhorado.
Maduro e inspirados, os caras de Manchester, Inglaterra, seguem rumo ao pódio dos maiores do rock na certeza de ficarem entre os primeiros. Até mais.

sábado, 25 de outubro de 2008

Pobre Imprensa Rica.

(... Das Barrancas do Rio Gavião (1973), primeiro disco de Elomar).

A edição brasileira da revista Rolling Stone publicou no ano passado uma lista com os cem melhores discos da música brasileira, entre diversos estilos - MPB, samba, rock, pop, rap -, o segundo álbum dos Novos Baianos, Acabou chorare (1972), foi eleito em primeiro lugar. Houve excessos e descaso no critério de seleção dos álbuns, como por exemplo, vários títulos de um único artista.
Elomar Figueira Mello não teve nenhum álbum mencionado. Cantor, músico, poeta e arquiteto, nasceu na cidade de Vitória da Conquista-Ba.
De formação erudita, apesar de cantar canções populares de cunho social e romântico, Elomar canta entre outros temas as vicissitudes do homem, a vida como terrível ofício e a falta de esperanças do povo "sertanezo".
Em seus versos riquíssimos de poesia com características ancestrais, como na música "O rapto de Juana do Tarugo": "Ó senhora dos Sarsais, minha alma só teme ao Rei dos reis, Deixa a alcôva vem-me à janela, Ó senhora dos Sarsais, Só por vosso amor e nada mais, Desça da torre Naíla donzela...". Em outros momentos, problemas atuais falam mais alto como em Campo Branco: "Campo Branco minhas penas, Que pena secô, Todo bem qui nóis tinha, Era a chuva era o amô, Num tem nada não, Nóis dois vai penando assim, Campo lindo ai qui tempo ruim, Tu sem chuva e a tristeza em mim".
Hoje, dezenas de pessoas morrem por estes motivos em diversas cidades do norte/nordeste, principalmente as crianças. A falta de chuvas constantes tornando as terras impróprias para o plantio e o descaso das autoridades - competentes (?) - dificultam a sobrevivência deste povo tão sofrido.
Não vejo nos jornais diários, principalmente do sul do país que ditam as informações comumente postas em nossos veículos de comunicação, notícias sobre estes fatos. Mas vejo como massificam a questão da violência urbana. Pessoas inocentes morrem diariamente por "bala perdida", sequestros seguido de morte, assaltos à mão-armada... Enfim, assuntos corriqueiros do nosso dia-a-dia.
E por que eles não noticiam as mortes de dezenas de pessoas do norte/nordeste do país vítimas de subnutrição e descaso das autoridades?
A banda de rap Racionais MC's contextuam a questão da violência urbana e são chamados de gênios - não sei quem foi o imbecil que deu-lhes este título -, e entram na lista da Rolling Stone com dois álbuns: Sobrevivendo no inferno (1998) e Nada como um dia após o outro (2002).
E Elomar, poeticamente e musicalmente mais rico do que os rappers, por que não teve nenhum álbum mencionado?
A omissão de alguns fatos reais e desprezo com algum dos nossos principais artistas, por parte da imprensa, é sinceramente uma das coisas que mais incomodam o On The Rocks.

domingo, 19 de outubro de 2008

A Poesia Concreta De André Luiz Sa~tos (1960-1983).


as aves são assim

meio tolas

meio voadoras

elas são mesmo

bobas e tolas


fazer churrasco das passarinhas

não seria o sim do não

pois eu sei o quanto sérias

elas são


voando no vento

ou chorando no chão

as aves são assim

aprontam

e pronto


mas eu sou

um caçador escroto

me visto de alpiste

e meto chumbo grosso.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Galeria.


A seção Galeria deste mês homenageia a peça O Rei da Vela de Oswald de Andrade na montagem do Teatro Oficina, São Paulo, 1967. Pintura do cenário: Hélio Eichbauer. Direção: Zé Celso Martinez.

O Rei da Vela é uma obra emblemática do modernismo escrita a partir de 1933, mas só encenada nos anos sessenta. Um marco para a cultura brasileira, enfoca a sociedade decadente pós-crise de 1929 e desencadeia, décadas depois, no movimento tropicalista.

Caetano Veloso colocou a pintura de Eichbauer estampada na capa de um dos seus melhores álbuns.

O Estrangeiro (1989), foi produzido pelos integrantes do grupo americano Ambitious Lovers: Arto Lindsay (guitarra) e Peter Scherer (teclados), que inclusive tocam no disco em companhia dos músicos Naná Vasconcelos, Bill Frisel, Tavinho Fialho, Cesinha, Toni Costa e Marc Ribot.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Pedro Juan Gutiérrez E Mudhoney Em Salvador.


Pedro Juan Gutiérrez é um dos melhores escritores da atualidade. Nascido em Havana, Cuba, sua obra sarcástica e visceral já foi comparada com a do americano Charles Bukowski, onde é comumente chamado pela crítica mundial de 'Bukowski dos trópicos'.

Gutiérrez vai estar dando uma palestra aqui em Salvador sobre literatura e sua obra. Mas este evento acontece amanhã, pois hoje...

Acontece o encerramento do Boom Bahia Festival no Pelourinho, Largo Pedro Archanjo, a partir das 18:00h. Se apresentarão as bandas: Pessoas Invisíveis, Nancy Viega, e fechando a noite, os americanos do Mudhoney, uma das emblemáticas bandas de Seattle. Good enough for me. Vamos?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Power Of Negative Thinking: B-Sides & Rarities.


Power Of Negative Thinking: B-Sides & Rarities (2008), é o mais novo lançamento dos escoceses do Jesus and Mary Chain. São quatro discos em um box repleto de raridades e lados b de compactos lançados em meados dos anos oitenta até 1998, quando a banda se separou após uma briga entre os irmãos Reid num show na Grécia.

Jesus and Mary Chain foi formado no bairro escocês de East Kilbridge pelos irmãos Jim e William Reid. Entediados por não ter o que fazer, a não ser assistir televisão e 'encher a cara' com os amigos de escola, resolveram comprar uma guitarra para matar o tempo.

Começaram tocando músicas de seus ídolos: Velvet Underground, Stooges, Beach Boys...

Logo, estavam escrevendo suas próprias letras. Convidaram os amigos Douglas Hart e Bobbie Gillespie, que sairia após o lançamento de seu primeiro álbum, Psychocandy (1985), para formar o Primal Scream.

Buscando uma nova sonoridade e letras que não falasse sobre política, coisa que eles odiavam, compraram um pedal japonês usado e com defeito, que acabou tornando a principal característica do som da banda: uma muralha de ruídos e distorções ensurdecedores.

"Upside down", primeiro single lançado em 1984, chamou a atenção dos críticos de plantão, mas sem muita repercussão.

Foi com "Just like honey", primeiro compacto extraído de Psychocandy, que os caras começaram a ganhar seu espaço nas publicações inglesas e criar um séquito de fãs em seus curtos shows.

Sempre usando roupas preta, costumavam tocar de costas para a plateia, demonstrando total apatia para com estes.

A fórmula ruídos, distorções e melancolia transformou Psychocandy num disco único na história. É punk sem ser agressivo. Por trás de toda barulheira tem um cara cantando como se estivesse falando no ouvido de uma mulher.

Junte o wall of sound de Phil Spector, mais Velvet Underground e Beach Boys, e aí está um som que veio para ficar.

Fim da primeira parte.

sábado, 4 de outubro de 2008

Cowboy Junkies, Uma Banda Classe A.


Eles começaram em Toronto, Canadá, em meados dos anos oitenta, seguindo a cartilha do fino blues e da mais delicada e simples country music norte-americana.

Michael Timmins, o fundador da banda, perambulou por muitos lugares procurando inspiração para a formação de um grupo que pretendia montar com seus irmãos Peter e Margo Timmins.

Viajou para Nova York em 1980 em busca da efervescência que sacudiu a grande maçã no final dos anos setenta, mas decepcionou-se com uma cena morna e de pouca inspiração.

Em seguida, foi para Londres onde Michael teve a sensação de que algo havia acontecido, interessando-se apenas, pelo Birthday Party de Nick Cave.

Cansado de perambular pelo mundo, retornou à sua cidade natal, Toronto, e fascinando-se pelo blues, montou com seus irmãos e o amigo Alan Anton, os Cowboy Junkies.

Em seu primeiro registro fonográfico, lançaram o álbum Whites off earth now (1986), gravado sob a abóboda de uma igreja pelo seu próprio selo, Latent. Aqui fica evidente a influência do blues.

Foram contratados pela RCA/BMG-Ariola onde gravaram o sublime The trinity session (1988). Singelo e acústico, o disco foi logo chamando atenção da crítica norte-americana de onde chuvas de elogios não faltaram à época do lançamento.

A banda sempre caprichou nas covers. Para este foram selecionadas: "Sweet Jane" do Velvet Underground e "I'm so lonesome i could cry" de Hank Williams.

O disco começa com Margo cantando "Mining for gold" à capela, e depois com um som simples, econômico e contagiante com "Misguided Angel".

"I don't get it" remete o ouvinte às origens do blues com seu solo de gaita matador. Ouça e perceba com seus próprios ouvidos. "Walking after midnight" e "Postcard blues" seguem a mesma linha. Brilhante.

Se você não se rendeu ainda, ouça: "To love is to bury" uma das mais belas canções que ouvi naquela época. Mesmo assim, se você não se sensibilizou com estas belas canções, desista. Este disco não foi feito para você.

Outros belos discos foram lançados, como: The caution horses (1990) e Black eyed man (1992). A banda continua na ativa. Vale a pena dar uma conferida em sua obra.

Este The trinity session foi um dos muitos LPs que comprei na extinta Kaya, a melhor loja de discos ao qual pisei meus pés aqui em Salvador.

Do antenado e carismático Edu Pampani e seu escudeiro Messias, passar na Kaya era item obrigatório quando vinha a Salvador, ou quando, já morando aqui, após o término das aulas no 2 de Julho.

A loja funcionava no térreo de um casarão na ladeira de Santa Teresa no histórico bairro 2 de Julho ocupando três salas. A primeira era a seção de livros e HQ's, e a segunda, dos discos de vinil. Camisetas, incensos e cartões postais ocupavam a terceira sala. Ah, e tinha o bid, um cigarrinho enrolado na própria folha. Costumava chamá-lo carinhosamente de erva indiana. Bukowski adorava. Soube disso lendo Hollywood, romance onde ele conta sua trajetória para criar o roteiro do filme Barfly.

Boa parte de minha mesada ficava por lá. Não foi diferente quando comecei a trabalhar. Recebia o salário no fim do mês e seguia sorridente a caminho da minha loja de discos preferida.

Foi lá que comprei Ziggy Stardust (importado), Psychocandy, Sister, Rocket to Russia, Rust never sleeps, Radio Ethiopia, Strange weather, Songs for Drella, Instinct... foram tantos!

Dos poucos que escapou das minhas mãos, e fico sentido até hoje, foi Isn't anything do My Bloody Valentine. Estava sem grana no dia, então deixei 'escondido' atrás de uns discos pensando que ninguém fosse achar. Como fui ingênuo...

Tempos depois veio a era do cd e tudo mudou. Messias saiu e as coisas nunca mais foram as mesmas.

Bons tempos. Às vezes, sinto-me um velho ao ficar recordando momentos como este. Mas não é de bons momentos que a vida da gente deveria ser?