sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Arte De Nelson Magalhães Filho.

Para ler ao som de Sad eyed lady of the lowlands (Bob Dylan).
(Feridas 2, acrílica s/ tela, 70x50cm. 2008)

Estive na comemoração dos 131 anos da Escola de Belas Artes da UFBA dia desses em companhia do meu amigo e artista plástico Nelsinho Magalhães, que estava expondo com outros professores/artistas da instituição e o texto que está no catálogo apresentando sua arte, chamou-me atenção. Eis aqui:
"Realizar trabalhos de arte, à base das experiências existenciais, como transpor as imensidões dolorosas das noites urinadas. Fingir figuras concebidas do desejo e da amargura. Instigações obscurecidas pela lua. Não acredito na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. Uma pintura inóspita, e ao mesmo tempo, infectada de frinchas para deixar passar as forças e os ratos. Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas, não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo. Voltar a ser criança ou a um hospital psiquiátrico, tanto faz se meu estômago dói. Ainda não matem os porcos. A pintura precisa estar escarpada no ponto mais afastado desse curral sinistro".
Verdadeiros versos de um artista talentoso, inquieto, romântico e rebelde por natureza. Uma espécie de autobiografia de bolso. Um relato áspero como um soco no estômago.
Feliz de mim que tenho a companhia desse cara nos momentos inspirados e de angústias também. Toda minha formação literária começou no ateliê dele. Foi lá que comecei a ler Rimbaud, Cortázar, Allan Poe, Dostóievski, Kafka, Caio Fernando, Nelson Rodrigues, Ana Cristina César, Baudelaire, John Fante, Walt Whitman, Kerouac e toda literatura beatnick, Maiacóvski, Fernando Pessoa, João Cabral, Bukowski, Beckett, Verlaine, Florbella Espanca, Clarice Lispector, Pablo Neruda e o maior de todos: Henry Miller, meu santo protetor.
Lembro-me uma vez ouvindo Tom Waits e bebendo umas cervas em seu ateliê, ele levantou-se e pegou três livros na estante, sentou-se e disse: "Você nunca mais vai ser o mesmo depois de ler estes livros". Foram eles: uma biografia de Henry Miller com passagens retiradas de seus romances; O ovo apunhalado de Caio Fernando e Betty Blue, esqueci o nome do autor agora.
Dito e feito. Nunca mais fui o mesmo! Henry Miller fez minha cabeça. Me fez pensar em tudo que estava em minha volta. Era bom ou ruim? Era uma merda. As companhias, o estilo de vida das pessoas e a minha também, os sorrisos ordinários preparados para te foder a qualquer momento. Distanciei-me cada vez mais das pessoas e de tudo. Queria era ficar em meu canto sossegado. Aliás, até hoje é assim: onde tiver um cantinho sem ninguém por perto, estarei por lá. Tornei-me cada vez menos sociável, mas sempre educado e sem perder a elegância, é claro. Ou come diria os Buenas Nelsinho e Luciano Fraga:"Mantendo a linhagem".
Conheci o cara ali por volta de 1989 na casa da cultura Galeno D'avelírio. Era um sábado de manhã, entrei com Fabrício e prá minha surpresa ouvi a introduçao de Hurricane de Bob Dylan. Então perguntei a Fabrício quem era que estava tocando. Ele respondeu:"Deve ser Nelsinho". Era o próprio. Estava no escritório/biblioteca que ficava ao lado do bar Delírio tocando violão. Começamos a conversar e ele me perguntou se gostava de Dylan!
"Adoro!", respondi
Pronto. Descobri que ele tinha o primeiro LP do Echo and The Bunnymen e que gostava dos Smiths. Logo, logo estava frequentando sua casa. Eu devia ser bem chato. Ia direto pedir livros e discos emprestado. Batia na porta e dizia:"Nelsinho, me empreste um livro".
Tempos depois lembrei que ele havia sido meu professor de artes na sexta série. Mas ele não lembra até hoje.
Quase vinte anos depois continuamos amigos, de vez em quando, acontece umas briguinhas, mas nada demais. Na verdade, é só mais um motivo para um brinde no bar de Turíbio - o melhor bar do recôncavo baiano -, é de lá que sai boa parte de nossas idéias mirabolantes.
Um livro que marcou muito nossa amizade foi Pergunte ao Pó de John Fante. Descobri em seu ateliê depois de uma noitada em Turíbio em meio ao pó e as fumaças da estrada.
Ah, os meus poemas não são publicados antes o crivo desse cara. Toda vez ele diz:
"Não mexa em nada".
"Será?", digo
"Publica logo esta porra!", ele brada
Nelsinho é o segundo amigo que homenageio aqui. Outros virão. Preparei ontem à noite um k7 para vocês ouvirem na semana do natal, mas para minha surpresa, não pude fazer a postagem no blog, pois está suspenso até o final do ano. Vocês podem procurar aqui mesmo o último k7 que fiz, aí é só clicar em my page que está logo abaixo da fitinha.
Tem poema novo no La Verga: http://www.lavergadelbuenas.blogspot.com/. E, para quem quiser conhecer melhor a arte de Nelsinho, é só clicar: http://www.anjobaldio.blogspot.com/. Até a próxima.
(Feridas 1, acrílica, s/tela, 70x50cm. 2008)
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