segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Obra-Prima.

(Horses. Foto by Robert Mapplethorpe).
Meu primeiro contato com a cantora, poetisa e jornalista Patti Smith, foi no longínquo anos oitenta, quando, lendo a revista Bizz, ao qual tinha o maior carinho, deparei-me com Horses (1975) na seção Discoteca Básica. O que me chamou atenção foi a foto da capa com Ms. Smith transmitindo um ar de intelectual/marginal. Fiquei sabendo de suas influências lendo a matéria e pesquisando sua obra dias depois. Patti é fascinada por Rimbaud e Baudelaire. Allen Ginsberg e Bob Dylan. Igual a mim.
Horses, seu primeiro álbum, foi concebido em meados dos anos setenta, época em que ela recitava seus poemas na igreja de St. Mark, no Bowery, em companhia do guitarrista Lenny Kaye, colega de jornalismo musical, e de seu namorado - o fotógrafo Robert Mapplethorpe.
Começou sua carreira profissional escrevendo para a Rolling Stone e a Creem, época em que esta era comandada pelo crítico Lester Bangs, já homenageado aqui. Quero aproveitar o momento para comunicar a todos que o On The Rocks existe pela influência de duas pessoas: Lester e o músico e jornalista, um dos fundadores da revista Bizz, Celso Pucci.
Então, antes mesmo das gravações de Horses, Patti já havia lançado vários livros de poesia, entre eles o Witt, que chegou em minhas mãos meses depois à minha grande descoberta.
Patrícia seria o nome de minha filha caso não tivesse pirado meses antes pela Marianne Faithfull, minha musa inspiradora. Patti Smith e Jane Birkin vêm depois.
Horses começa com Patti declamando um de seus poemas ao som do piano de Richard Sohl: "Jesus morreu pelos pecados de outras pessoas, pelos meus não... espessa, pedra quente - meu pecado é só meu, eles pertencem a mim", e arremete com Gloria do Van Morrison.
Ao som da guitarra de Kaye o ouvinte pode notar claramente a fúria punk correndo solta pelas ruas da Big Apple. Punk com poesia sublime. Era tudo que precisava naquele momento em minha vida.
Horses passou a ser minha trilha sonora quando lia Rimbaud e Allen Ginsberg.
O álbum é intenso do começo ao fim. Cru. Excêntrico. Junky. Desbocado.Comecei a ouvir um pouco de reggae depois de ouvir Redondo Beach, a segunda faixa. Um reggae movido a ácidos e anfetaminas, e um pouco de maconha.
Os ruídos de guitarra de Kaye sufocam o poema denso e arrastado de Birdland.
Break up é uma das mais belas. Impossível não se emocionar com os gritos extasiantes da maior poetisa do rock n'roll, nascida em Chicago e criada em Nova Jersey.
Participam do disco e de sua vida artística até hoje, os fiéis e ótimos músicos: os já citados Lenny Kaye e Richard Sohl (1948-1990) -, Ivan Krall (baixo) e Jay Dee Daugherty (bateria).
Sob a produção de John Cale - ex-Velvet Underground - que já havia produzido o primeiro disco de Nico, Chelsea Girl (1967), Patti disse à época: "Tudo o que estava procurando era alguém que entendesse o lado técnico das coisas. Acabei com um artista totalmente maníaco".
Horses mexeu comigo. E muito. Passava os dias lendo Witt e ouvindo aquele disco maravilhoso sentado no sofá e, ora lendo, ora admirando sua brilhante capa, pensava: "Que mulher é essa?!"
Ficava sem jeito para comunicar ao meus amigos a minha descoberta, eles não iam gostar devido a crueza sonora e sua poesia impactante.
Patti dá continuidade artística ao excelente trabalho desenvolvido pelo Velvet Underground nos idos de 1966/1967 quando estes sacudiram a Big Apple em companhia do artista plástico Andy Warhol e seu espetáculo multi-mídia Up-Tight, mas essa é outra história. Mantenha-se vivo.

(Foto que está em Witt,1973. By R.M.).
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