domingo, 31 de maio de 2009

Conversas De Cafetinas.

Ontem fez um belo dia. Choveu torrencialmente no centro da cidade. A bela paisagem que avistei da Praça Castro Alves confundiu minha mente. Céu e mar pareciam uma coisa só. Carros passavam vagarosamente. Pessoas subiam e desciam apressadamente a Ladeira da Montanha. Este cenário me fez lembrar do livro Conversas de Cafetinas que acabei de ler.

O jornalista e dramaturgo Sérgio Maggio conta a história de oito mulheres que passaram grande parte de suas vidas como cafetinas, ou melhor, donas de casa - é assim que elas preferem ser chamadas -, em Salvador e cidades do recôncavo baiano.

O autor traça minuciosamente e com afinco o perfil dessas mulheres, após meses dedicando-se a ouvir seus depoimentos.

São relatos sofridos. Um lado negro da vida que conheço à distância.

Gina saiu hippie de Brasília e virou cafetina no caminho. Montou seu cabaré na Ladeira da Montanha, acumulou dinheiro, comprou seu próprio apartamento, casou-se e levou uma vida estabilizada por longos anos até ser encontrada morta em frente ao prédio onde morava com seu marido. Gina morreu de forma misteriosa. Caiu ou foi empurrada da janela de seu apartamento?

Saiana, a mulher do facão, residente de Nazaré das Farinhas - cidade onde Sérgio nasceu -, juntou uma bolsa de dólares quando trabalhava como prostituta dentro de navios e no cais de Salvador.

Voltou para sua cidade natal e montou um dos cabarés mais respeitados do estado. Saiana não gosta de ser chamada de cafetina: "Aqui, é Saiana, é Esquerdinha, é Rolinha".

Várias partes do livro me fez lembrar de quando morava no Santo Antônio, além do Carmo, e costumava passar de carro pelo Brega do Pelô, como era conhecida a rua onde viviam as prostitutas do bairro histórico, antes da reforma.

Mulheres e crianças ficavam em frente de suas casas observando os passantes com olhar de fome. O fedor da rua era insuportável e as casas eram escuras e feias.

Nunca gostei de passar por lá, mas às vezes era inevitável. Até a próxima.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

18 de Maio, Quanto Tens Por Dizer... (3° Parte).

Para ler ao som de Decades by Joy Division.


Hoje é o meu aniversário. Publico aqui uma pequena parte da minha autobiografia que estou preparando para ser publicado em meu primeiro livro - 18 de Maio, Quanto Tens Por Dizer... - que será lançado em 17 de maio de 2012. Mantenha-se vivo.

Sou magro,
mas não sou canalha
Meu caralho é grande
assim como minhas mãos
e meu coração
Bebo o máximo
que meu organismo
pode suportar
Nasci em 1972
ano de glória
de Ziggy Stardust
Parti a testa
aos dois anos de idade
caindo da escada na casa
de meus avós
Ano em que perdi
meu pai
em um acidente
fatal na Br-101
O enterro foi no dia do meu aniversário
A cicatriz me faz
lembrar
desse episódio
até hoje
Tive uma sensação estranha
quando dei meu primeiro
soco no rosto do meu colega
Guaraci
Época em que me apaixonei por Ana Cláudia e Fernanda
Passei por momentos de profunda tristeza
quando vovó Matildes
faleceu
e fomos morar - eu e meu irmão -
em Guapira
longe de nossa mãe
Quando anoitecia era terrível
a luz do candeeiro
me fazia chorar
Ainda na infância
vi minha mãe
transando
com meu padrasto
Fiquei horrorizado!
Pensei em suicídio
aos catorze anos de idade
quando morava em Cruz das Almas,
cidade das sombras
Angústias profundas
quase me ergueram daqui
Não gosto do sol
nem de receber visita surpresa
Considero Bob Dylan, The Beatles e Rolling Stones
os artistas mais influentes da história da música pop mundial
Já parti alguns corações
e muitas mulheres
partiram o meu
O curso de minha vida
poderia ser diferente
não fosse a beat generation - meus herois!
Eu já vendi
iogurte no subúrbio
para alimentar
minha filha
Já trabalhei em uma
repartição pública
e fingi ser
responsável
O que mais me incomodava
no teatro
era o assédio
por parte dos gays
Já cruzei céus e mares
em busca dos meus sonhos
Eles parecem não acabar nunca!
Vivo melhor à noite
e mudo quando é lua cheia
Adoro quando uma mulher
depila a buceta
deixando
o meio cabeludinho
Odeio 'Parabéns pra Você'
e raramente
comemoro
meu aniversário
Sou eternamente
grato
a Orlando
por ele ter me emprestado
Psychocandy
E a Nelsinho
por ter me apresentado
a John Fante e Henry Miller
Filosofia de bar
é comigo
mesmo: "Quem não bebe,
não vê o mundo rodar"
Não gosto de perfume
nem de falar
ao telefone
Nunca tive um fusca
Não vejo graça
em tirar
foto
sorrindo
As tardes de domingo
são tediosas,
por isso bebo
a tarde toda.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Dica Para Este Fim De Semana.


Tim Burton - O Triste Fim Do Pequeno Menino Ostra E Outras Histórias (Girafinha Editora). Recomendo de coração para este fim de semana as curtas histórias do cineasta e escritor Tim Burton.
A obra de Burton com sua marca indelével e humor ácido pega o leitor de cheio não somente por seus escritos, mas pelos desenhos que permeiam o livro com sua própria assinatura.
São historinhas como O Menino Robô, que conta a vida de um menino que nasce com problemas de relação com seus pais por ser feito de alumínio. A situação piora dentro de casa depois que seu "pai" descobre que o menino é filho do forno micro-ondas!
"Como você pôde me trair com um eletrodoméstico?" Diz o "pai" estarrecido para sua esposa.
Altamente recomendável para os admiradores da obra de Burton.

Publicarei na próxima segunda-feira, 18 de maio - data do meu aniversário -, uma pequena parte de minha autobiografia que será publicada em meu primeiro livro. Até lá.

sábado, 9 de maio de 2009

Gliss, Morning Light.

(Capa de Devotion Implosion, 2009).
Os californianos do Gliss têm me tocado muito ultimamente. Este trio liderado pela loiraça Victoria Cecilia, uma espécie de Nico dos dias atuais, faz um som que remete muito aos geniais The Jesus and Mary Chain e ao Velvet Underground. Depois do Raveonettes, nunca mais uma banda me fez apertar o repeat tantas vezes quanto eles.
Gliss não é apenas mais uma banda influenciada por artistas dos anos oitenta. Victoria e seus companheiros, Martin Kligman e David Reiss, mostram personalidade em Devotion Implosion (2009), segundo e mais recente álbum.
A bela Morning Light, minha música do momento, é o primeiro single lançado de Devotion Implosion e encanta de cara.
Guitarra inebriante, bateria seca, beirando o primitivo - tipo Mö Tucker -, baixo vigoroso, são algumas características desses que vão dá muito o que falar.
O clipe bateu em cheio. As outras canções são ótimas - se você não gosta das influências do Gliss - desista!
Clique aqui para assistir o video clipe de Morning Light.http://www.youtube.com/watch?v=lhJqER5Kouo. Até a próxima.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Bar Do Turíbio, O Melhor Do Recôncavo.


Localizado em Cruz das Almas, no recôncavo baiano, o Bar do Turíbio é o meu preferido. O estabelecimento deste simpático velhinho, na rua da Estação, é o ponto de encontro dos Buenas - artistas e boêmios que se reunem nos fins de semana para um bate papo em meio há várias cervas e alguns petiscos.


Comecei a frequentar este bar através do meu amigo Nelsinho Magalhães por volta de 1989/1990, época em que criamos a instituição Buenas - sem fins lucrativos.
Foi lá que conheci Luciano Fraga, D. Luchiano para os íntimos - outro Buenas - então amigo de Nelsinho, hoje meu amigo também.
"Furô Turíbio!"
É a máxima do bar. O simpático e sorridente velhinho não tarda com a cerva. Aqui não tem esse negócio de levantar o dedinho, nem assoviar. É só dizer a palavra mágica e a cerva está em nossa mesa geladíssima.
Minha mãe costumava merendar com suas colegas à época do colegial neste bar. Ela conta que bebia K-suco - daqueles que tinha uma jarra sorrindo no rótulo -, com biscoito sete capas, que eu gosto muito no café.
Já comprei muita bolinha de ping-pong em companhia do meu amigo Fabrício Silva ali por volta dos doze anos de idade. Chegávamos por volta das 14:00h e ficávamos esperando Turíbio abrir o bar pra gente comprar as tais bolinhas.

Uma vez, após uma longa farra no inverno, época do São João, cheguei em casa tarde da noite e fui logo guardando minha carteira. O problema foi que acabei esquecendo onde havia guardado e achei que estivesse ficado no bar.
Fui até sua casa e expliquei a situação. Turíbio seguiu comigo até o bar que já estava fechado. Percorri pot todos os locais e nada!
"Meu filho, você deve ter perdido no caminho, ou então, tá em sua casa."

Não deu outra. Haja paciência para aturar bêbado aos oitenta anos de idade!
Turíbio, obrigado por você existir. As charges são do artista plástico baiano Geraldo Bonelli. Até a próxima.