domingo, 23 de agosto de 2009

City Lights Bookstore, A Vanguarda Literária da América.

(Ferlinghetti em frente à City Lights, San Francisco).
A juventude rebelde e boêmia americana vivia em meio a um estagnado e silencioso momento no início da década de cinquenta quando o poeta ítalo-americano Lawrence Ferlinghetti, então com vinte e quatro anos, resolveu abrir uma pequena livraria em San Francisco, cidade que adotara para viver após estudar pintura na Europa.
Esta livraria, que serviu de ponto de encontro de intelectuais e artistas em geral, foi batizada por Ferlinghetti e seu sócio, o artista Shigeyoshi (Shig) Murao, de City Lights Bookstore.
No início, eles apenas vendiam livros. Em 1955, fundaram a editora de mesmo nome e é aí que começa a efervescência na opaca San Francisco da época. O primeiro livro publicado foi Pictures of a Gone World, do próprio Ferlinghetti.
É justamente esta a importância da City Lights, publicar escritores que viviam à margem da sociedade e dos meios literários conservadores. O que não demorou muito para Ferlinghetti e seu sócio terem problemas com a lei.
Alguém havia denunciado a City Lights de obscena por publicar Howl de Allen Ginsberg (no Brasil, Uivo, lançado pela L&PM editores em 1984). Uma cópia fora encontrada com Shig pelo Comitê de Investigações de Atividades Anti-americanas.
Logo após a vitória judicial, Howl vendeu 360 mil exemplares e a City Lights não parou mais de crescer.
Outro fato que fez a City Lights ser uma livraria/editora marginalizada, foi pela questão da qualidade do papel em que os livros eram impressos. Papel de jornal e nunca em capa dura, como era de costume as editoras tradicionais publicarem seus escritores.
Seu catálogo conta com mais de cem títulos, entre os quais, livros de Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Michael McLure, Neal Cassady, Charles Bukowski, Gary Snider, Antonin Artaud, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e até poemas de amor de Karl Marx.
É constante até hoje artistas de várias partes do mundo baterem ponto na City Lights sempre que estão de passagem por San Francisco. Bob Dylan é um assíduo frequentador do lugar.
No auge de sua popularidade, Dylan costumava se reunir com os poetas beats nos fins de tarde para um bate papo.
Somente os amigos de Ferlinghetti sabiam de uma passagem secreta pros fundos da livraria onde podem ficar por ali sem ser perturbados por fãs e admiradores de suas obras.
Reza a lenda que a amizade de Dylan com Ginsberg começou lá, nos fundos da livraria.
Sem sombra de dúvidas, a City Lights foi determinante por impulsionar a beat generation, publicando seus escritos, e por isso mesmo, sendo conhecida como a vanguarda literária da América por publicar os impublicáveis.
Há um dia no calendário de San Francisco dedicado a Ferlinghetti, é o Ferlinghetti Day -, homenagem da cidade a este sublime vanguardista. Para quem não sabe, minha autobiografia foi inspirada nele.
Eis um pequeno trecho da autobiografia de Ferlinghetti:
"Eu sofri um pouco.
Eu já sentei numa cadeira de balanço de aço.
Sou uma lágrima do sol.
Sou a montanha pela qual os poetas trepam.
Eu inventei o alfabeto
depois de olhar o voo das garças
que faziam letras com as pernas.
Eu sou um lago na planície.
Uma palavra numa árvore.
Eu sou uma montanha de poesia.
Sou uma blitz no inarticulado.
Sonhei
que meus dentes caíram
mas a língua viveu
pra contar a história".
Um dia eu chego lá. Compre o primeiro livro de Ferlinghetti que você encontrar pela frente. On The Rocks garante prazer do começo ao fim.
O meu blog visual já está na ativa. Chama-se Deus só protege os bêbados e as crianças: http://www.deusprotege.blogspot.com/. Até a próxima.

(Michael McLure, Bob Dylan e Allen Ginsberg no fundo da City Lights).

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Deus só protege os bêbados e as crianças.

(Eu e minha amiga Cassinha no bar Balcão, Salvador - 2008. Adoro esta foto).
Aqui estou mais uma vez desempregado. Quando montei este blog no ano passado, estava completamente fragilizado naquele momento. Havia tomado uma rasteira do destino e necessitava escrever e compartilhar minhas ideias com outras pessoas. A maior quantidade de pessoas possíveis.
On The Rocks veio ao mundo com o intuito de manter-me vivo e bem, muito bem.
Não me sinto um derrotado com a perda do meu emprego e nem estou fragilizado como no ano passado. Desespero, nem pensar. Se alguém perdeu alguma coisa, esse alguém foi a empresa e não eu. Fodam-se.
Fico pensando em novos rumos... Eu que nunca fiquei parado em canto algum. Vivo sempre procurando, buscando um jeito, uma forma, uma válvula de escape bem bacana pra viver nesse mundo cão.
Mundo este em que eu não pedi pra nascer.
...
Blog é uma coisa viciante. Após o resultado que me agradou bastante com o On The Rocks, resolvi montar a La Verga Del Buenas mostrando a minha veia marginal para escrever poemas eróticos.
Bem, agora estou montando um blog onde vou postar fotografias, pinturas, desenhos e charges, ou seja, será um blog visual. Poderia ser um fotolog, eu sei, mas não curto. Prefiro blog mesmo.
Minha dúvida cruel é quanto ao nome. Eis os prováveis nomes:
1. Fuck you;
2. Tarcísio que não é Meira;
3. Buenas Generation;
4. Deus só protege os bêbados e as crianças; este é o meu preferido
...
Estava lembrando de um momento mágico em minha vida, daqueles que você jamais esquece.
Aqui em Salvador existia antigamente uma loja de discos chamada D. Ratão que ficava localizada na Av. Carlos Gomes, centro da cidade. Roberto era o nome do dono e todo mundo o conhecia como D. Ratão.
Eu costumava aparecer lá nos fins de tarde quando saía do colégio Ypiranga para ficar ouvindo música e bater uns papos com ele e alguns clientes legais que costumavam frequentar sua ótima loja.
Neste dia, eu estava sozinho do lado de fora, pois ele estava conversando com um cliente em particular e eu não queria atrapalhar a conversa - a loja era pequena e se ficasse três pessoas do lado de dentro ficava apertado demais.
Bem, estava no meu cantinho quando de repente ouvi aquela voz fanha acompanhando uma batida no violão que eu nunca tinha escutado. Fiquei arrepiado naquele momento. A Voz e a batida em perfeita sincronia com a orquestração me fez sair da órbita e ficar divagando por uns instantes... Perguntei quem era e ele disse: João Gilberto.
Era o disco João Gilberto - o terceiro de sua carreira. Nem pensei duas vezes. Fui em casa e pedi uma grana a minha mãe, mas ela não tinha. Então, tomei um adiantamento no dia seguinte na Yakult, a primeira empresa em que eu trabalhei, e comprei o disco junto com o primeiro Chega de Saudade. Dias depois, foi a vez do maravilhoso O amor, o sorriso e a flor.
Me orgulho de ter os primeiros três discos do João em vinil. Verdadeiras raridades.
Minha filha Tassinha adorava dormir ao embalo do som do Joãozinho macoinha - o apelido de João Gilberto na época em que começou a tocar violão embaixo de um umbuzeiro em sua cidade natal, Juazeiro, Bahia.
Fico por aqui na certeza de voltar já com meu blog visual funcionando. Até a próxima.

domingo, 9 de agosto de 2009

Cinema Transcendental, Tia Anna e o Meu Primeiro Porre.

Meu primeiro porre foi aos dez anos de idade. Era sexta-feira da paixão e minha família estava reunida, como sempre, na casa de vovó Dai. Estavam todos presentes para um almoço familiar.
Eu bebia uma taça de vinho rosé, vagarosamente, quando o telefone tocou. Era tia Anna, que naquela época morava em Brasília.
Vi minha vó chorar ao telefone quando tia Anna disse a ela que havia almoçado um sanduíche.
Essa notícia pegou-me de surpresa. Todos os meus familiares bebendo e comendo do melhor e tia Anna comendo sanduíche! Fiquei perplexo.
Fui até a geladeira e coloquei mais vinho em minha taça. Repeti este ato várias vezes. Ninguém disse nada, então, quando dei por mim, já tinha bebido meia garrafa de vinho.
Percebi as coisas rodando como nunca havia sentido. Não conseguia andar direito e as pessoas riam quando perceberam que eu estava completamente embriagado.
Coincidentemente, o disco que estava tocando no momento da notícia era Cinema Transcendental do Caetano Veloso - que tia Anna havia comprado meses antes da viagem.
Foi o primeiro disco do Caetano que eu conheci, e é pra mim até hoje, seu melhor registro fonográfico.
Lua de São Jorge, a música de abertura, não me agradava muito, então costumava pular e colocar a seguinte faixa: Oração ao Tempo - onde o disco começa pra mim.
Fui até ao meu quarto. Deitei na cama e comecei a chorar e, em seguida, vomitar. Vomitei muito. No dia seguinte foi terrível. Minha cabeça doia e eu enjoava de tudo que se aproximava de mim.
Que sensação horrível!
Cinema Transcendental é um disco maravilhoso. Menino do Rio é uma canção sedutora e tia Anna adora.
Essa minha tia é diferente das outras. Pra mim é mais do que uma tia. Uma mãe, talvez. Algo espiritual muito forte nos une. Parceira de copos das boas, ela é simplesmente hilária e adora falar putaria.
Tia Anna é fã da La Verga Del Buenas, meu blog de poemas eróticos, que segundo ela, é de pornografia e das mais brabas.
Ela é foda.
Uma das canções que ela mais gosta chama-se Elegia. Esta foi escrita por Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos baseando-se no poema do poeta inglês do século XVII, John Donne.
"Deixa que minha mão errante adentre/Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre/Minha América, minha terra à vista/Reino de paz, se um homem só a conquista/Minha mina preciosa, meu imprério/Feliz de quem penetre o teu mistério... Todo prazer provem do corpo (como a alma sem corpo) sem vestes/Como encadernação vistosa, feita para iletrados, a mulher se enfeita/Mas ela é um livro místico e somente/A alguns a que tal graça se consente, é dado lê-la/Eu sou um que sabe".
Perfeita.
A versão pra Vampiro de Jorge Mautner é demais. O disco segue com a singela Trilhos Urbanos. Em Louco por Você, Caetano dá um show de lounge music com a maravilhosa A Outra Banda da Terra.
As outras canções - Beleza Pura, Cajuína, Aracaju e Os Meninos Dançam -, atestam ser este nosso álbum preferido, meu e de tia Anna.
Ontem assisti o documentário Coração Vagabundo. Suave e simplesmente hilário - por conta das histórias ditas pelo próprio Caetano -, este filme me fez relaxar bastante. É que os últimos dias têm sido tensos pra mim. Bem...
O primeiro sorriso da plateia vem de quando Tom, um de seus filhos, quando pequeno chegando a Nova York, disse:
"Aqui parece com Santo Amaro".
E o pai responde: "Mas é filho, é parecedíssimo".
Quase me mijo na cadeira do cinema de tanto rir. Ou de quando Caetano e sua equipe chegam a Tóquio e os policiais da imigração revistam sua bagagens e apalpam seus corpos.
"Pô, teve um cara que pegou no meu pau!"
Disse perplexo e sorrindo ao mesmo tempo.
"Ele não machucou. Mas é estranho... eu não conheço o cara".
O cinema veio abaixo.
Caetano é massa. On The Rocks é fã do cara.
Fico por aqui. Desejo aos paipais um belo dia. Até a próxima.