domingo, 9 de agosto de 2009

Cinema Transcendental, Tia Anna e o Meu Primeiro Porre.

Meu primeiro porre foi aos dez anos de idade. Era sexta-feira da paixão e minha família estava reunida, como sempre, na casa de vovó Dai. Estavam todos presentes para um almoço familiar.
Eu bebia uma taça de vinho rosé, vagarosamente, quando o telefone tocou. Era tia Anna, que naquela época morava em Brasília.
Vi minha vó chorar ao telefone quando tia Anna disse a ela que havia almoçado um sanduíche.
Essa notícia pegou-me de surpresa. Todos os meus familiares bebendo e comendo do melhor e tia Anna comendo sanduíche! Fiquei perplexo.
Fui até a geladeira e coloquei mais vinho em minha taça. Repeti este ato várias vezes. Ninguém disse nada, então, quando dei por mim, já tinha bebido meia garrafa de vinho.
Percebi as coisas rodando como nunca havia sentido. Não conseguia andar direito e as pessoas riam quando perceberam que eu estava completamente embriagado.
Coincidentemente, o disco que estava tocando no momento da notícia era Cinema Transcendental do Caetano Veloso - que tia Anna havia comprado meses antes da viagem.
Foi o primeiro disco do Caetano que eu conheci, e é pra mim até hoje, seu melhor registro fonográfico.
Lua de São Jorge, a música de abertura, não me agradava muito, então costumava pular e colocar a seguinte faixa: Oração ao Tempo - onde o disco começa pra mim.
Fui até ao meu quarto. Deitei na cama e comecei a chorar e, em seguida, vomitar. Vomitei muito. No dia seguinte foi terrível. Minha cabeça doia e eu enjoava de tudo que se aproximava de mim.
Que sensação horrível!
Cinema Transcendental é um disco maravilhoso. Menino do Rio é uma canção sedutora e tia Anna adora.
Essa minha tia é diferente das outras. Pra mim é mais do que uma tia. Uma mãe, talvez. Algo espiritual muito forte nos une. Parceira de copos das boas, ela é simplesmente hilária e adora falar putaria.
Tia Anna é fã da La Verga Del Buenas, meu blog de poemas eróticos, que segundo ela, é de pornografia e das mais brabas.
Ela é foda.
Uma das canções que ela mais gosta chama-se Elegia. Esta foi escrita por Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos baseando-se no poema do poeta inglês do século XVII, John Donne.
"Deixa que minha mão errante adentre/Atrás, na frente, em cima, embaixo, entre/Minha América, minha terra à vista/Reino de paz, se um homem só a conquista/Minha mina preciosa, meu imprério/Feliz de quem penetre o teu mistério... Todo prazer provem do corpo (como a alma sem corpo) sem vestes/Como encadernação vistosa, feita para iletrados, a mulher se enfeita/Mas ela é um livro místico e somente/A alguns a que tal graça se consente, é dado lê-la/Eu sou um que sabe".
Perfeita.
A versão pra Vampiro de Jorge Mautner é demais. O disco segue com a singela Trilhos Urbanos. Em Louco por Você, Caetano dá um show de lounge music com a maravilhosa A Outra Banda da Terra.
As outras canções - Beleza Pura, Cajuína, Aracaju e Os Meninos Dançam -, atestam ser este nosso álbum preferido, meu e de tia Anna.
Ontem assisti o documentário Coração Vagabundo. Suave e simplesmente hilário - por conta das histórias ditas pelo próprio Caetano -, este filme me fez relaxar bastante. É que os últimos dias têm sido tensos pra mim. Bem...
O primeiro sorriso da plateia vem de quando Tom, um de seus filhos, quando pequeno chegando a Nova York, disse:
"Aqui parece com Santo Amaro".
E o pai responde: "Mas é filho, é parecedíssimo".
Quase me mijo na cadeira do cinema de tanto rir. Ou de quando Caetano e sua equipe chegam a Tóquio e os policiais da imigração revistam sua bagagens e apalpam seus corpos.
"Pô, teve um cara que pegou no meu pau!"
Disse perplexo e sorrindo ao mesmo tempo.
"Ele não machucou. Mas é estranho... eu não conheço o cara".
O cinema veio abaixo.
Caetano é massa. On The Rocks é fã do cara.
Fico por aqui. Desejo aos paipais um belo dia. Até a próxima.
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