sábado, 26 de junho de 2010

Para uma musa não muito distante daqui.

Acho que te intimidei quando disse que ainda vou te dar mais beijos na boca. São desejos que parecem satisfazer nossos anseios, é o que parece ao menos. Não importa o tamanho da tua língua, te beijarei sob trilhos que estão cada vez mais próximos (comboios nos aproximarão).
Imagino teus livros repousados suavemente em teu colo como um gato mimado igualzinho ao que você cria em sua casa onde pairam personagens de uma história que parece não ter fim.
Eu quero você. Quero passar dias inteiros trancado em teu quarto ouvindo Pixies e Joy Division - só pra começar.
Lembro dos teus convites e estou cada vez mais próximos de realizá-lo.
Teu lugar é aqui, honey.
Aqui você pode usar suas saias floridas. Mostrar teu umbiguinho de fora com este piercing que te dei de presente naquela manhã tenebrosa carregada de nuvens e estrondos vindos da mata; mesma mata em que transamos pela primeira vez na relva semeada por teus vizinhos que nos espreitavam pelas carroças de feno com seus cavalos robustos e peludos - semelhantes aos do filme que assistimos antes de você partir. Lembra da cena no momento que toca Sea of love com os Honeydrippers?
Me preocupo contigo vivendo no meio desses loucos e estupradores. Sua mãe é uma verdadeira psicopata, viciada em remédios, deprimida e infeliz. Cuidado com seu padrasto: ele vai te sacanear, te entupir de sêmen.
Não tenho como te ajudar vivendo neste inferno em que me afundei. A velha louca e sebosa continua a me desafiar. Temo seu olhar de manhã cedo. Seus escarros esverdeados misturam-se com chicletes de menta que o porteiro arrombador de portões costuma jogar na calçada cheia de bolas de gude e olhares famintos desejando aqueles pastéis frios e gordurosos na janela que ela deixa à vista das crianças que me dão pena.
Seu marido enlouqueceu na noite da formatura na Faculdade de Medicina. Sem condições psíquicas para receber o diploma, saiu em busca de algo para aliviar seus tormentos.
Neste momento, sou abençoado com um suco de jenipapo servido por Dona Glorinha - aquela da quitanda onde você adorava comprar morangos, lembra?
Vou abrir uma cerva agora. Estou com muita saudade de ti. Fico por aqui ao som de Rockin' chair - perfeita balada desses caras de Manchester.

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Disco da Semana.


Escrever-me, Envelhecer-me, Esquecer-me é o primeiro álbum solo de Messias, vocalista e compositor da banda brincando de deus, uma das mais legais do país. Gravado com a participação de vários músicos da cidade num processo que durou mais ou menos dois anos para ficar pronto, Messias estará lançando seu rebento na próxima quarta-feira, 30, na Igreja da Barroquinha - ao lado do Espaço de Cinema Glauber Rocha. O show começa às 21h.
Grande momento para este ser que vos escreve sair da toca. Vou em busca de canções capazes de confortar meus ouvidos tão bombardeados neste São João.
O álbum é triplo e será vendido no momento do show. Eu recomendo de coração aos amantes dos grandes sons.
Para conhecer o trabalho de Messias, clique aqui: www.messias.art.br. Até a próxima.

sábado, 19 de junho de 2010

Obra-Prima.


Zé Ramalho. Gravado em 1977, mas só lançado um ano depois, o primeiro álbum solo de Zé Ramalho da Paraíba - era assim que ele assinava suas letras no começo da carreira - era para ser incluído na seção Disco da Semana, mas por tratar-se de um clássico da nossa música, nossa cultura, haja visto o empobrecimento que contaminou nossas rádios e programas televisivos em todo país, achei melhor incluí-lo na Obra-Prima.
Eu tinha exatos 18 anos quando tive acesso à sua obra. Já conhecia algumas músicas que tocavam no rádio, como Mistérios da Meia-noite, que faz parte da trilha sonora da novela Roque Santeiro, verdadeiro hit nacional.
Eu adorava quando aparecia o professor Astromar perseguindo as personagens de Cláudia Raia e Íris de Oliveira pelas ruas da cidade. , era massa.
Este clássico começa com Avôhai, uma palavra mágica criada por ele mesmo para homenagear seu avô Raimundo: "Um velho cruza a soleira de botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar, Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforge de caçador..."
Reza a lenda que Zé foi criado pelo velhinho. Mas ao longo da música, o Avôhai vai se tornando uma palavra enigmática. Lembro de ficar trancado no quarto tentando decifrar a magia por trás da música.
O disco segue preparando o ouvinte para embarcar nas nuas e cruas Vila do Sôssego e Chão de Giz. Perfeitas. Maravilhosas.
Ouvi muito essas canções numa época de descobertas e de experiências inesquecíveis em minha vida.
Eu vivia querendo chutar o balde com água fria na cara de muita gente só pra ver o estrago. Afastei de mim influências burguesas por parte do meio social em que cresci. Fiz muita gente torcer o bico. Já fiz muitos terem raiva de mim.
Hoje sou um cara tranquilo. Ouço desaforos por parte de pessoas que tenho o maior carinho e fico na minha. Antigamente, não. Eu era terrível. Já fiz muita gente chorar e estas canções marcaram boa parte desses momentos.
O lado B começa com a psicodélica A Dança das Borboletas. Letra e instrumental louquíssimo mostrando as influências rockers do cara.
Eu adoro Segunda-feira Cinzenta e Meninas de Albarã - canções que mostram as influências nordestinas deste gênio nascido no sertão brasileiro.
Fiquei contente quando soube da gravação do seu último disco com versões de músicas de Mr. Dylan. Assisti ao show de lançamento em Cruz das Almas, no São João do ano passado, em companhia do meu irmão.
Eu bebi muito nesse dia. As canções de Zé misturadas com as de Dylan esquentaram aquela noite fria, chuvosa e inesquecível. Compre. Até a próxima.

sábado, 12 de junho de 2010

Disco da Semana e o Novo Videoclipe do The National.

Teenage Fanclub - Shadows (2010). Finalmente, depois de cinco anos, esses escoceses especialistas em melodias perfeitas estão de volta com Shadows, uma sublime coleção de canções da mais alta qualidade.

Com três compositores na formação, o Teenage Fanclub, banda responsável pelos ótimos Bandwagonesque (1991) e Grand Prix (1995), deixou-me este tempo todo questionando se eles retornariam ou não aos estúdios e palcos mundo afora.

Retornaram, para o meu deleite e de muitos fãs espalhados por todo planeta. Shadows começa com Sometimes i don't need to believe in. Quer recomeço melhor?

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Por que as pessoas não acreditam que eu parei de beber? Esta é a minha dúvida cruel do momento.

Meus amigos quando leram aqui no blog minha decisão de dar um tempo na birita, pensaram que fosse alguma pegadinha, lenda urbana ou que seria um personagem brincando com meus leitores.

Meus caros, a decisão é séria e deverá durar um bom tempo para o tão aguardado momento da volta aos brindes e goles descomunais.

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Dia desses, descobri um blog de poesia que me chamou atenção pela força e harmonia com que a menina Camila Fraga tem com a escrita. Se você estiver interessado em conhecer o Puta Flor, clique no link ao lado.

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Estou passando o fim de semana em Cruz das Almas, minha terra natal, e adorando o clima frio que está fazendo no momento. É muito agradável o clima daqui nesta época do ano. Chove bem fraquinho. Meus amigos ligam toda hora para um bate papo nos botecos da cidade, mas é uma situação estranha e desconfortável para um abstêmio. Eu não consigo interagir com as pessoas e me sinto deslocado no tempo. É realmente estranho, então prefiro ficar em casa acompanhando os jogos da copa, navegando na Web, curtindo a família...

Assista abaixo o novo videoclipe do The National, uma das bandas mais legais surgida nos últimos anos, que eu indiquei no Twitter (buenasrocks) semana passada. Até a próxima.

The National - Bloodbuzz Ohio.

sábado, 5 de junho de 2010

A Música em Minha Vida e o Disco da Semana.

Fim dos anos setenta e a canção Sultans of swing da banda inglesa Dire Straits tocava exaustivamente nas rádios do país. Eu morava com meu irmão, nossa mãe, nosso padrasto e o seu filho do primeiro casamento.
Nosso padrasto era um taxista safado que minha mãe conheceu anos depois da morte de meu pai.
Nessa época, nossa melhor diversão era quando nossa mãezinha levava a gente para o Farol da Barra, nossa praia preferida, por causa das piscinas que se formavam quando a maré estava baixa e enchia de peixinhos.
Eu não ficava tomando banho de mar como os outros meninos; gostava era de pescar com sacos plásticos transparente os peixinhos coloridos que enchiam meus olhos de felicidade. Minha paciência estava sob controle, então eu ficava horas tentando pescar um, pois eles eram rápidos demais e um vacilo na hora "H" poderia botar tudo a perder.
Vez em quando, as ondas furavam o bloqueio que as pedras faziam e acertavam meu rosto em cheio com aquela água fria e salgada que eu adoro até hoje.
Morávamos numa casa alugada na rua Direita de Santo Antônio, centro histórico de Salvador, próximos à casa de nossos avós paternos, Vovô Zé e vovó Dai - na verdade eles eram muito mais do que avós. Com a morte do nosso pai os laços entre a gente ficaram mais fortes, então éramos os queridinhos dos doces velhinhos - ninguém podia chamar a gente de feios que era briga na certa.
Vivíamos divididos entre nossa mãe e eles. Sempre havia umas brigas porque os velhinhos queriam que a gente morasse com eles e minha mãe não aceitava.
Após muitas discussões, nossos avós conseguiram realizar seu grande sonho quando souberam de uma briga que houve com nossa mãe e o covarde do nosso padrasto.
Minha mãe é ciumenta e o cara um escroto por natureza. Então em uma cena de ciúmes, houve uma discussão e o animal bateu nela com um soco em seu belo rosto deixando-o roxo. Não presenciamos a cena, soubemos depois. Minha madrinha providenciou contar aos nossos avós o que havia acontecido. Depois desse episódio os velhinhos ficaram preocupados com nossa criação e começaram a pressionar cada vez mais nossa mãezinha para que ela deixasse eles cuidarem da gente. Não deu outra e quando mudamos para Cruz das Almas, fomos morar com eles, que também estavam de mudança.
Moramos na rua 29 de Julho, local onde passei os mais belos momentos da minha adolescência.
Podemos ver nitidamente a pancada no rosto de nossa mãezinha dias depois. Aquela imagem nunca dissipou de minha mente e, graças a Deus, ele se separou dela pouco tempo depois deixando-a livre para viver em paz.
Toda vez que ouço este disco lembro desse momento sinistro em minha trajetória. Com a separação, o LP ficou comigo. Hoje tenho uma versão em CD e adoro escutá-lo, mesmo quando me recordo desses momentos tristes.
Wild west end é a mais bela de todas e eu nunca ouço uma vez só. Esta canção é citada em uma poesia da Ana Cristina César, uma das poetas que mais admiro, e é simplesmente maravilhosa a citação.
Queria muito que nosso padrasto lesse este post, mas sei que isso não vai acontecer, pois seu intelecto é baixo e sua cultura é da fundura de uma poça d'água.
, lembro de nossa mãezinha preparando lasanha pra gente ao som desse disco com um belo sorriso transbordando de felicidade, pois ela acreditava que com este segundo casamento seus sonhos se realizariam e ela seria feliz para sempre. O que não aconteceu.
Quis o destino afastá-la do nosso pai muito cedo. Ele faleceu com vinte e três anos de idade deixando uma mulher linda, jovem - apenas vinte e um anos -, e dois pequeninos: eu, com dois anos, e meu irmão, com um ano e seis meses.
Toda vez que minha mãe ouve Detalhes de Roberto e Erasmo ela chora. Fico imaginando o que se passa em sua cabecinha... Vejo suas lágrimas escorrendo devagarzinho, seus olhos fundos cansados, talvez de sonhar, de desejar a felicidade sabendo que esta passou longe ao longo de sua vida.
Pungentes lágrimas salgadas como a água do mar que acertava meu rosto quando criança, semelhante a essas que escorrem neste exato momento.

Disco da Semana - The Boatman's Call, do australiano Nick Cave, o príncipe das trevas, foi o disco que mais ouvi nesta semana. Gravado em 1997, com a competente banda de apoio The Bad Seeds, que acompanha Mr. Cave há muitos anos, este álbum é composto totalmente por baladas densas e apaixonantes. Costumo ouvir assim que acordo, quando chego do trabalho e mais uma ouvidinha antes de dormir - quando fico ali pensando como foi o dia, como está a vida, entre outras coisas...
The Boatman's Call começa com a belíssima Into my arms - indiquei o videoclipe esta semana no Twitter. O video foi gravado ao vivo e tem a participação de John Cale - o maestro e exímio músico que fez parte da primeira formação do seminal Velvet Underground.
Foi ao som desta canção que escrevi meu primeiro poema. Chama-se Poema de fim de tarde de um dia ensolarado e foi publicado aqui em 2008 - ver arquivos ao lado.
Segue com Lime tree arbour, People ain't no good, Brompton oratory... (Are you) the one that i've been waiting for? - minha favorita -, foi composta para PJ Harvey, sua ex-namorada.
Cave tinha acabado de levar um chute na bunda e estava fragilizado, daí o romantismo que impregna o álbum. Especialista em levar chute na bunda, imagino o que o rapaz passou nesse momento.
Escolhi este disco por ser o mais romântico de sua carreira - na opinião deste ser que vos escreve, é claro.
Visite a La Verga, meu blog de poemas eróticos: www.lavergadelbuenas.blogspot.com. On The Rocks no Twitter: buenasrocks. Até a próxima.