sábado, 5 de junho de 2010

A Música em Minha Vida e o Disco da Semana.

Fim dos anos setenta e a canção Sultans of swing da banda inglesa Dire Straits tocava exaustivamente nas rádios do país. Eu morava com meu irmão, nossa mãe, nosso padrasto e o seu filho do primeiro casamento.
Nosso padrasto era um taxista safado que minha mãe conheceu anos depois da morte de meu pai.
Nessa época, nossa melhor diversão era quando nossa mãezinha levava a gente para o Farol da Barra, nossa praia preferida, por causa das piscinas que se formavam quando a maré estava baixa e enchia de peixinhos.
Eu não ficava tomando banho de mar como os outros meninos; gostava era de pescar com sacos plásticos transparente os peixinhos coloridos que enchiam meus olhos de felicidade. Minha paciência estava sob controle, então eu ficava horas tentando pescar um, pois eles eram rápidos demais e um vacilo na hora "H" poderia botar tudo a perder.
Vez em quando, as ondas furavam o bloqueio que as pedras faziam e acertavam meu rosto em cheio com aquela água fria e salgada que eu adoro até hoje.
Morávamos numa casa alugada na rua Direita de Santo Antônio, centro histórico de Salvador, próximos à casa de nossos avós paternos, Vovô Zé e vovó Dai - na verdade eles eram muito mais do que avós. Com a morte do nosso pai os laços entre a gente ficaram mais fortes, então éramos os queridinhos dos doces velhinhos - ninguém podia chamar a gente de feios que era briga na certa.
Vivíamos divididos entre nossa mãe e eles. Sempre havia umas brigas porque os velhinhos queriam que a gente morasse com eles e minha mãe não aceitava.
Após muitas discussões, nossos avós conseguiram realizar seu grande sonho quando souberam de uma briga que houve com nossa mãe e o covarde do nosso padrasto.
Minha mãe é ciumenta e o cara um escroto por natureza. Então em uma cena de ciúmes, houve uma discussão e o animal bateu nela com um soco em seu belo rosto deixando-o roxo. Não presenciamos a cena, soubemos depois. Minha madrinha providenciou contar aos nossos avós o que havia acontecido. Depois desse episódio os velhinhos ficaram preocupados com nossa criação e começaram a pressionar cada vez mais nossa mãezinha para que ela deixasse eles cuidarem da gente. Não deu outra e quando mudamos para Cruz das Almas, fomos morar com eles, que também estavam de mudança.
Moramos na rua 29 de Julho, local onde passei os mais belos momentos da minha adolescência.
Podemos ver nitidamente a pancada no rosto de nossa mãezinha dias depois. Aquela imagem nunca dissipou de minha mente e, graças a Deus, ele se separou dela pouco tempo depois deixando-a livre para viver em paz.
Toda vez que ouço este disco lembro desse momento sinistro em minha trajetória. Com a separação, o LP ficou comigo. Hoje tenho uma versão em CD e adoro escutá-lo, mesmo quando me recordo desses momentos tristes.
Wild west end é a mais bela de todas e eu nunca ouço uma vez só. Esta canção é citada em uma poesia da Ana Cristina César, uma das poetas que mais admiro, e é simplesmente maravilhosa a citação.
Queria muito que nosso padrasto lesse este post, mas sei que isso não vai acontecer, pois seu intelecto é baixo e sua cultura é da fundura de uma poça d'água.
, lembro de nossa mãezinha preparando lasanha pra gente ao som desse disco com um belo sorriso transbordando de felicidade, pois ela acreditava que com este segundo casamento seus sonhos se realizariam e ela seria feliz para sempre. O que não aconteceu.
Quis o destino afastá-la do nosso pai muito cedo. Ele faleceu com vinte e três anos de idade deixando uma mulher linda, jovem - apenas vinte e um anos -, e dois pequeninos: eu, com dois anos, e meu irmão, com um ano e seis meses.
Toda vez que minha mãe ouve Detalhes de Roberto e Erasmo ela chora. Fico imaginando o que se passa em sua cabecinha... Vejo suas lágrimas escorrendo devagarzinho, seus olhos fundos cansados, talvez de sonhar, de desejar a felicidade sabendo que esta passou longe ao longo de sua vida.
Pungentes lágrimas salgadas como a água do mar que acertava meu rosto quando criança, semelhante a essas que escorrem neste exato momento.

Disco da Semana - The Boatman's Call, do australiano Nick Cave, o príncipe das trevas, foi o disco que mais ouvi nesta semana. Gravado em 1997, com a competente banda de apoio The Bad Seeds, que acompanha Mr. Cave há muitos anos, este álbum é composto totalmente por baladas densas e apaixonantes. Costumo ouvir assim que acordo, quando chego do trabalho e mais uma ouvidinha antes de dormir - quando fico ali pensando como foi o dia, como está a vida, entre outras coisas...
The Boatman's Call começa com a belíssima Into my arms - indiquei o videoclipe esta semana no Twitter. O video foi gravado ao vivo e tem a participação de John Cale - o maestro e exímio músico que fez parte da primeira formação do seminal Velvet Underground.
Foi ao som desta canção que escrevi meu primeiro poema. Chama-se Poema de fim de tarde de um dia ensolarado e foi publicado aqui em 2008 - ver arquivos ao lado.
Segue com Lime tree arbour, People ain't no good, Brompton oratory... (Are you) the one that i've been waiting for? - minha favorita -, foi composta para PJ Harvey, sua ex-namorada.
Cave tinha acabado de levar um chute na bunda e estava fragilizado, daí o romantismo que impregna o álbum. Especialista em levar chute na bunda, imagino o que o rapaz passou nesse momento.
Escolhi este disco por ser o mais romântico de sua carreira - na opinião deste ser que vos escreve, é claro.
Visite a La Verga, meu blog de poemas eróticos: www.lavergadelbuenas.blogspot.com. On The Rocks no Twitter: buenasrocks. Até a próxima.
Postar um comentário