sábado, 19 de junho de 2010

Obra-Prima.


Zé Ramalho. Gravado em 1977, mas só lançado um ano depois, o primeiro álbum solo de Zé Ramalho da Paraíba - era assim que ele assinava suas letras no começo da carreira - era para ser incluído na seção Disco da Semana, mas por tratar-se de um clássico da nossa música, nossa cultura, haja visto o empobrecimento que contaminou nossas rádios e programas televisivos em todo país, achei melhor incluí-lo na Obra-Prima.
Eu tinha exatos 18 anos quando tive acesso à sua obra. Já conhecia algumas músicas que tocavam no rádio, como Mistérios da Meia-noite, que faz parte da trilha sonora da novela Roque Santeiro, verdadeiro hit nacional.
Eu adorava quando aparecia o professor Astromar perseguindo as personagens de Cláudia Raia e Íris de Oliveira pelas ruas da cidade. , era massa.
Este clássico começa com Avôhai, uma palavra mágica criada por ele mesmo para homenagear seu avô Raimundo: "Um velho cruza a soleira de botas longas, de barbas longas, de ouro o brilho do seu colar, Na laje fria onde coarava sua camisa e seu alforge de caçador..."
Reza a lenda que Zé foi criado pelo velhinho. Mas ao longo da música, o Avôhai vai se tornando uma palavra enigmática. Lembro de ficar trancado no quarto tentando decifrar a magia por trás da música.
O disco segue preparando o ouvinte para embarcar nas nuas e cruas Vila do Sôssego e Chão de Giz. Perfeitas. Maravilhosas.
Ouvi muito essas canções numa época de descobertas e de experiências inesquecíveis em minha vida.
Eu vivia querendo chutar o balde com água fria na cara de muita gente só pra ver o estrago. Afastei de mim influências burguesas por parte do meio social em que cresci. Fiz muita gente torcer o bico. Já fiz muitos terem raiva de mim.
Hoje sou um cara tranquilo. Ouço desaforos por parte de pessoas que tenho o maior carinho e fico na minha. Antigamente, não. Eu era terrível. Já fiz muita gente chorar e estas canções marcaram boa parte desses momentos.
O lado B começa com a psicodélica A Dança das Borboletas. Letra e instrumental louquíssimo mostrando as influências rockers do cara.
Eu adoro Segunda-feira Cinzenta e Meninas de Albarã - canções que mostram as influências nordestinas deste gênio nascido no sertão brasileiro.
Fiquei contente quando soube da gravação do seu último disco com versões de músicas de Mr. Dylan. Assisti ao show de lançamento em Cruz das Almas, no São João do ano passado, em companhia do meu irmão.
Eu bebi muito nesse dia. As canções de Zé misturadas com as de Dylan esquentaram aquela noite fria, chuvosa e inesquecível. Compre. Até a próxima.
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