quarta-feira, 20 de outubro de 2010

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Para ler ao som de Blue by Joni Mitchell.
Escrevi este conto, o primeiro que ouso, há uns quatro meses atrás e só agora resolvi postar aqui para vocês. Sou fã de contos e sempre que descubro um escritor novo através de romances, procuro saber se este tem poemas e contos - minhas paixões.
Aproximou-se pelos cantos da loja. Entrou arrastando uma sandália de couro cru. No pulso, um relógio pifado. Cabelos desgrenhados, olhos fundos carregados de uma beleza irretocável. Seu nome era Beatriz.
Eu já tinha visto ela caminhar olhando para o chão pelas ruas do bairro e percebi pressa e ansiedade em tudo que fazia. Costumava vestir camisetas com estampas de artistas que ela tanto admirava. A de Jim Jarmusch era linda - uma foto em companhia de Tom Waits no banco de uma praça.
Debruçou-se no balcão e entregou um bilhete, o primeiro de uma série, que dizia assim: "Speculo a teu respeito".
Joni Mitchell e o melancólico Blue ecoavam suavemente das caixas de som.
Dia seguinte, já estava com um ar mais tranquilo e entregou o segundo: "Não sou nada disso".
Estávamos mais íntimos nesse momento. Falávamos coisas sobre nossas vidas com mais frequência. Ríamos o tempo todo. Às vezes, ficávamos calados ouvindo o canto suave da Joni olhando um para o outro.
"Você a conhece?", perguntei.
Ela disse que sim e ficamos por ali...
Sorriu. Eu a beijei.
Saiu levando o disco para ouvir em sua casa que ficava próxima do meu trabalho - ela chamava-me carinhosamente de Tharsis.
Beatriz comprava o pão sempre no final da tarde e era de costume passar na loja para ouvir uns discos. Ficava por ali ouvindo música no headphone e balançando a cabeça.
Após uma dessas audições, ela tirou da bolsa o terceiro, o que mais mexeu comigo: "Isto é espelho".
Eu ficava até tarde da noite tentando desvendar as enigmáticas frases que aquela menina ma entregava. Seu olhar dizia-me coisas indecifráveis. Um mundo pouco visitado. Restrito. Nunca bebi tanto em minha vida. Costumava ouvir Blue sozinho trancado no quarto procurando uma resposta, algo que pudesse desvendar e me aproximar mais dela.
Desapareceu por uns tempos sem deixar informação alguma. Quando soube, estava internada no hospital. Havia tomado uma overdose de pílulas para dormir, pois sofria de insônia desde os tempos de criança.
Estava triste quando retornou e, com o s olhos carregados de lágrimas, entregou o quarto bilhete e saiu apressadamente: "Eu o admiro secretamente".
Uma vez apareceu para agradecer pelo Blue e disse em seguida que este é sua melhor companhia nas últimas semanas.
As minhas tardes estavam encantadoras. Deslumbrantes. Não via a hora de chegar a próxima e esta, quando chegou, veio junto o quinto e último: "Flores entrelaçadas não fazem sentido".
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