domingo, 20 de março de 2011

Vic Chesnutt e Cowboy Junkies, uma banda classe A.


O cara é da Geórgia. Vivia na sarjeta tocando em bares em troca de alguns goles e trocados até ser " descoberto " por Michael Stipe, que produziu seus dois primeiros discos.
Alcoólatra, paraplégico desde os 18 anos de idade, vítima de um acidente de carro, tornou-se um artista cult devido a sua trajetória maldita e elogios de artistas famosos, entre eles Madonna, Smashing Pumpkins e Sparklehorse que o homenagearam em um tributo gravado em 1996.
Dono de uma voz cortante e instrumental simples, suas canções caracterizam-se pelo tom irônico e amargo, tem dificuldades para acender um cigarro e sofre para afinar seu violão nos shows.
Costuma abri-los com a seguinte sentença: "Olhem para mim, lutando para continuar vivendo".
Recebeu uma certa notoriedade da crítica após o lançamento do álbum The Salesman And Bernadette, gravado em 1998 na meca da country music, Nashville, em companhia da banda Lambchop, precursora do movimento batizado pela crítica norte-americana no final dos anos noventa de alt-country.
Recomendo de coração aos amantes das baladas românticas de Tom Waits, Mark Lanegan, Elliott Smith e Richard Hawley os discos Drunk (1993) e Silver Lake (2003).
Publiquei este texto pela primeira vez no extinto Musicbox em 2003.


Cowboy Junkies, uma banda classe A.
Eles começaram em Toronto, Canadá, em meados dos anos oitenta, seguindo a cartilha do fino blues e da mais delicada e simples country music norte-americana.
Michael Timmins, o fundador da banda, perambulou por muitos lugares procurando inspiração para a formação de um grupo que pretendia montar com seus irmãos Peter e Margo Timmins.
Viajou para Nova York em 1980 em busca da efervescência que sacudiu a grande maçã no final dos anos setenta, mas decepcionou-se com uma cena morna e de pouca inspiração.
Em seguida, foi para Londres onde Michael teve a sensação de que algo havia acontecido, interessando-se apenas, pelo Birthday Party de Nick Cave.
Cansado de perambular pelo mundo, retornou à sua cidade natal, Toronto, e fascinando-se pelo blues, montou com seus irmãos e o amigo Alan Anton, os Cowboy Junkies.
Em seu primeiro registro fonográfico, lançaram o álbum Whites off earth now (1986), gravado sob a abóboda de uma igreja pelo seu próprio selo, Latent. Aqui fica evidente a influência do blues.
Foram contratados pela RCA/BMG-Ariola onde gravaram o sublime The Trinity Sessions (1988). Singelo e acústico, o disco foi logo chamando atenção da crítica norte-americana de onde chuvas de elogios não faltaram à época do lançamento.
A banda sempre caprichou nas covers. Para este foram selecionadas: "Sweet Jane" do Velvet Underground e "I'm so lonesome i could cry" de Hank Williams.
O disco começa com Margo cantando "Mining for gold" à capela, e depois com um som simples, econômico e contagiante com "Misguided Angel".
"I don't get it" remete o ouvinte às origens do blues com seu solo de gaita matador. Ouça e perceba com seus próprios ouvidos. "Walking after midnight" e "Postcard blues" seguem a mesma linha. Brilhante.
Se você não se rendeu ainda, ouça: "To love is to bury" uma das mais belas canções que ouvi naquela época. Mesmo assim, se você não se sensibilizou com estas belas canções, desista. Este disco não foi feito para você.
Outros belos discos foram lançados, como: The Caution horses (1990) e Black eyed man (1992). A banda continua na ativa. Vale a pena dar uma conferida em sua obra.
Este The Trinity Sessions foi um dos muitos LPs que comprei na extinta Kaya, a melhor loja de discos ao qual pisei meus pés aqui em Salvador.
Do antenado e carismático Edu Pampani e seu escudeiro Messias, passar na Kaya era item obrigatório quando vinha a Salvador, ou quando, já morando aqui, após o término das aulas no 2 de Julho.
A loja funcionava no térreo de um casarão na ladeira de Santa Teresa no histórico bairro 2 de Julho ocupando três salas. A primeira era a seção de livros e HQ's, e a segunda, dos discos de vinil. Camisetas, incensos e cartões postais ocupavam a terceira sala. Ah, e tinha o bid, um cigarrinho enrolado na própria folha. Costumava chamá-lo carinhosamente de erva indiana. Bukowski adorava. Soube disso lendo Hollywood, romance onde ele conta sua trajetória para criar o roteiro do filme Barfly.
Boa parte de minha mesada ficava por lá. Não foi diferente quando comecei a trabalhar. Recebia o salário no fim do mês e seguia sorridente a caminho da minha loja de discos preferida.
Foi lá que comprei Ziggy Stardust (importado), Psychocandy, Sister, Rocket to Russia, Rust never sleeps, Radio Ethiopia, Strange weather, Songs for Drella, Instinct... foram tantos!
Dos poucos que escapou das minhas mãos, e fico sentido até hoje, foi Isn't anything do My Bloody Valentine. Estava sem grana no dia, então deixei 'escondido' atrás de uns discos pensando que ninguém fosse achar. Como fui ingênuo...
Tempos depois veio a era do cd e tudo mudou. Messias saiu e as coisas nunca mais foram as mesmas.
Bons tempos. Às vezes, sinto-me um velho ao ficar recordando momentos como este. Mas não é de bons momentos que a vida da gente deveria ser?
--------------
Terça-feira é dia de TAZ (Tuesday Autonomous Zone) no Ulisses Bar (Rua Direita de Santo Antônio, além do Carmo). 19h. Free. Até a próxima.
Postar um comentário