domingo, 26 de fevereiro de 2012

Entre Satélites.



Este texto foi postado no Facebook em novembro do ano passado, dois meses depois de ter chegado em São Paulo. Gosto muito dele, e por isso mesmo, quero mostrar aos leitores do blog que não são meus amigos lá.


Ontem, antes de sair de casa para o aniversário de Bianca, sobrinha de minha namorada, comi um pouco do macarrão, puro, que eu mesmo preparei, e joguei o resto no balde do lixo da cozinha, pois vacilei no tempero e não tinha nada para acompanhar.
Gilson, um dos caras que divide apartamento comigo, viu a cena e perguntou por quê eu estava fazendo aquilo; expliquei a ele e saí.
O aniversário foi bacana. Minha gata estava lá acompanhada de seus familiares, que são bem legais, por sinal.
No final, retornei caminhando sozinho pra casa. Fazia um friozinho na hora, mas eu não me incomodo com o frio. Pus minhas mãos no bolso e caminhei lentamente...
A noite é sedutora em qualquer lugar do mundo e eu me permito ser seduzido, sempre, por ela. As luzes dos carros e dos semáforos são coadjuvantes, mas sem elas, só haveriam a lua e as estrelas - o que são pouco para mim.
Chegando em casa, encontrei Gilson na porta do prédio se despedindo do porteiro; perguntei pra onde ele ia e ele respondeu: "Vou ao mercado. Vem comigo?". Uma vez dentro do mercado, ele me pediu para que eu escolhesse uma pizza enquanto foi pegar umas cervas. Beleza. Pagou e conversamos um pouco no caminho sobre os crackeiros, zumbis da noite. Mesma noite que me seduz.
Chegando em casa, coloquei a pizza no forno e ele abriu as cervas. Brindamos. Ele parecia que queria me dizer algo, mas estava sem saber como - eu saquei.
Depois da segunda latinha, se aproximou de mim e disse assim: "Tarcísio, esta pizza é sua. Somente sua". Perguntei o motivo; eis a resposta: "Meu coração cortou quando eu te vi comendo macarrão puro. Fiquei com dó de você, por isso comprei esta pizza. É só sua. Ok?". Respirei fundo. Ele percebeu minha emoção e me abraçou. Agradeci emocionado. E, em seguida, ele abriu a terceira latinha e seguiu para o seu quarto. Sentei-me no chão frio da cozinha próximo à máquina de lavar e comi minha pizza pensando na vida e no sentido das coisas, mas não vi sentido algum.
Levantei-me, enxuguei minhas lágrimas, lavei os pratos e fui para o meu quarto teclar com Momon - isto faz sentido para mim.


P.S.: São pessoas como o Gilson que Deus costuma colocar em meu caminho. De vez em quando, aparece uns despachos, mas nada acontece - eles passam batido.


São Paulo, novembro de 2011.


Postarei na próxima quarta-feira, 29, Azedinho como morango, minha nova crônica, na La Verga Del Buenas - para quem não sabe, meu blog de poemas eróticos.


Para encerrar, quero dizer que foi uma honra para o On The Rocks ter recebido um comentário do Caetano Veloso, um dos artistas que mais admiro neste país, no post anterior.


Até a próxima.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Rua Guaianazes, o embrião da Cracolândia.


Eu moro na rua Guaianazes, o embrião da Cracolândia (centro de São Paulo). No começo, eu me assustei um pouco com a quantidade de crackeiros que aqui vivem há muitos anos - segundo os antigos moradores.

Desde o começo do ano, quando o governador Alckmin - uma espécie de Hitler, versão camuflada -, lembrando a perversidade que os moradores de Pinheirinho sofreram recentemente, desabrigou esses seres que mais parecem zumbis, do que seres humanos, da Cracolândia, que fica próximo à estação da Luz, perto daqui de casa, que a quantidade de zumbis têm aumentado.

Todos os dias, principalmente à noite, os policiais passam espantando uma corja com mais de duzentos deles; que não adianta nada, pois logo eles voltam lotando a rua e trazendo transtornos para os moradores com suas algazarras, fumando a pedra e aprontando das suas.

A polícia, acreditando que está cumprindo o seu papel, e a sociedade, fingindo acreditar que eles vão resolver este tipo de problema, transformam um trabalho que deveria ser sério em brincadeira de gato e rato.

Fico na varanda do apartamento observando tudo e analisando as coisas...

Dia desses, eu vi um policial dormindo no banco do carona quando passava espantando a corja - como eu queria ter uma câmera nesse momento! 

Também já vi um policial esticando os braços para fora da aviatura para pegar algo com um transeunte.

Eu tenho nojo de políticos e odeio bandidos fardados.

Para aumentar o meu desprezo que tenho por eles, na sexta-feira à noite, quando eu chegava do trabalho, vi dois policiais algemando um rapaz na porta de um bar - eu não sei o que aconteceu. Sei que ao lado do rapaz, tinha uma mulher segurando uma criança que estava transtornado e gritando desesperadamente para os policias "larguem meu pai moço, larguem ele!".

A criança conseguiu se separar da mãe dele e pendurou-se no pescoço de um dos policiais pedindo para que o soltasse. Aquela cena tirou minha noite de sono.

As lágrimas dele cortaram meu coração. "Gente, faz alguma coisa!". Pô, me deu vontade de intervir, mas sabia que se fizesse isto, eu iria preso e tomaria muita porrada. Fui um covarde, eu sei, e fiquei muito mal depois.

Imediatamente, oito carros da polícia invadiram a rua com seu som ridículo, e estridente, para pegarem um "marginal" que estava visivelmente irritado com tudo que estava acontecendo...

(Continua).