sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Não digo que sou mau, mas digo que tome cuidado. Sou de 
uma raça indomável, que se movimenta rápido, o tipo de criatura que deixa um rastro de ânsia quando passa. Já não digo mais mentiras porque perdi a imaginação mas não há nada que seja confiável nas minhas verdades. Abro os olhos e olho para o teto. Isso me dá vontade de pensar. Penso deitado durante muitas horas. Nem sempre foi assim. Como Sid e Nancy, eu também tentei chegar a tempo para o jantar, mas os cartazes de publicidade e os sinais de trânsito foram apodrecendo meu sangue. Mamãe vinha toda noite inspecionar meu sono: primeiro tirava o livro das minhas mãos, depois me agasalhava bem, me benzia duas vezes, apagava a luz e ia embora sem fazer o menor barulho. Como Sid e Nancy, eu também adivinhei formas nas nuvens e nem sempre elas eram agradáveis. Como eles, eu fiquei farto de ver desfilar professores fedorentos e bandas militares enquanto no fundo soltavam ferozes cuspidas e peidos entrecortados. Então pulei a janela e pisei fundo no acelerador, entrei em contato com a grama e com as libélulas, e logo não havia mais grama e sim um tiquetaque prometedor, uma brusca ameaça de música e outros que como eu procuravam encrenca".



Trecho do livro Era uma vez o amor mas tive que matá-lo de Efraim Medina Reyes, que está lançando livro novo.
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