terça-feira, 16 de outubro de 2012

Acabo de acender uma vela para Jack Kerouac...


(Beatrice Dalle).

Beatrice,

Acabo de acender uma vela para Jack Kerouac. Voltei a lê-lo depois que comecei a fazer o curso sobre a geração beat com Claudio Willer, o poeta que traduziu Uivo, Kaddish e outros poemas do Allen Ginsberg para o Brasil. Tem uma coisa que tem me preocupado muito ultimamente: eu não consigo mais escrever na janelinha dos meus blogs, nem no word; só consigo no Facebook. É sério. Então, eu copio e colo no On The Rocks, ou, quando não posto, arquivo ou mando pro meu amigo Nelsinho Magalhães por e-mail. É louco, eu sei.  Assim como escrever pra personagens que têm vida própria mas que estão longe do meu alcance, como você vivendo nesta melancólica Amsterdã sozinha sonhando em ser uma pintora reconhecida mundialmente. Ontem eu peguei emprestado na biblioteca Mário de Andrade o livro 68 contos do Raymond Carver. Já tinha ouvido falar nesse cara, mas nunca tinha lido nada dele. Foram meus amigos daqui de SP (Marião e o Bad boy beat) que me indicaram. Comecei a ler o primeiro conto, mas resolvi parar, pois só consigo pensar em Kerouac agora lendo Big sur e numa menina que tá mexendo comigo. Fiquei sabendo ontem que ela mora próxima à biblioteca; boa desculpa para fazer uma visita. A biblioteca como pretexto pra chegar nela. Eu não sou fã de clássicos da literatura, nunca fui, nem dos escritores contemporâneos que só servem pra mexer com a cabeça de estudantes universitários. A maioria são metidos a besta. Não vale a pena lê-los, por isso recorro sempre aos meus mestres John Fante, Henry Miller, Bukowski, Cortázar, Dostoiévski, Allen Ginsberg e toda beat generation. Esses caras sangraram no papel. Seus escritos urgem. Mostraram ao mundo a dor que habitavam suas almas sofridas. O que eu queria mesmo neste momento era esquecer de mim só pra ver como é. Como as coisas ficam. Imagino que deve ser bem melhor sem minha presença. Jane Birkin tá aqui em SP. Quer andar de skate (ela não trouxe o dela dessa vez). Não tenho skate e nem como conseguir um emprestado. É provável que a gente beba na Augusta (o point paulistano dos descolados). Incrível como esta cidade é enorme, mas todos só falam na Augusta, até quem vem de fora. Me divirto com tudo isso. Você está vendo como o mundo é limitado? Em Amsterdã deve ser assim também, não é? O mundo está se tornando cada vez mais um lugar desprezível. Soube que foi proibido fumar maconha nas ruas dessa cidade que você adotou como sua. É verdade, Beatrice? Imagino você tendo que se trancar em casa, forçada. Deve estar entediada, eu bem sei. Ah, eu mudei teu mapa astral.  O da Debbie, também. Debbie agora é ariana, descendente, áries; lua em áries e vênus em leão. Ou seja, o capeta de minissaia às quatro da matina na famosa Augusta. Tô prestes a me mudar. É que meu brother quer vender o apartamento. Vou sentir saudade daqui, o segundo lugar que me acolheu na selva de pedra. Não sei pra onde vou ainda. Só sei que na rua não vou ficar. Não tenho almoçado ultimamente. Acordo ao meio-dia, tomo café e abro o livro, antes, entro na Web rapidinho e mergulho embaixo do edredon. Passo horas lendo Big sur. Tá perto de acabar. Costumo ler devagar, como se estivesse saboreando cada letra, cada palavra. Tem mais uma coisa estranha acontecendo comigo: tenho sentido um ardor na garganta que tá me deixando preocupado. Nunca senti isso antes. Não tá inflamada. Não me incomoda de falar, mas arde. Fico tenso quando lembro.

Daqui a pouco tem mais uma aula com o Willer. Vou nessa. A gente se fala. Beijo no coração,

Buenas.

P.S.: esse finalzinho ficou piegas?
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