sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Da época em que eu tirava onda do que não era.


Na época das férias eu ia para a praia com Neum, meu irmão, e Lu, meu primo e amigo que partiu pra outra em 2004 vítima de um acidente de carro - semelhante ao meu pai que morreu com apenas 23 anos de idade batendo com um caminhão na estrada -, então a gente ia para a praia de Stella Maris com a prancha emprestada de um primo mais velho só pra impressionar e chamar atenção das gatinhas. Eu e Lu tínhamos treze anos, e Neum, doze. A gente revezava com a prancha embaixo do braço pra desfilar na frente delas. Lembro que toda vez que uma colava na gente pra perguntar por quê não caíamos na água, eu respondia dizendo que tive febre na noite passada e que minha garganta estava um pouco inflamada. Mentira pura. Eu não conseguia me apoiar em cima da prancha, nem do skate; vivia tomando queda e uma vez quase parto a testa na casa de tia Lucinha por pura teimosia (eu sempre fui teimoso).

Não à toa estou morando sozinho em São Paulo longe dos meus familiares - por eles eu jamais sairia de Salvador. Bem, quem sabe da minha vida sou eu.

Acontece que como a gente não caía na água porque ninguém sabia surfar e o lance era só de onda, ficávamos conversando com elas na areia e de vez em quando o papo rendia e pegávamos os telefones delas e combinávamos encontros nos shoppings, cineminha e tal. Mas sobre esse lance de tirar onda de uma coisa que eu não era durou até os meus quinze anos justamente quando mergulhei de cabeça no rock e em seguida na literatura beat. Aí sim: nada de tirar onda. Eu já era rocker usando jeans colado no corpo e meu all star cano longo exibindo orgulhosamente minhas camisetas com estampas das bandas da minha vida. Hoje, aos quarenta anos, nada mudou. Continuo me vestindo do mesmo jeito sem tirar onda de nada. É que eu sou assim mesmo e faço coleção de camisetas. Na semana passada, para aumentar esta coleção, comprei uma do Lou Reed e uma do The Jesus and Mary Chain, mais uma, e já tô de olho em uma dos Tindersticks e outra do Nick Cave. Minha coleção de tênis all star só faz aumentar também e me esquecendo de como é que se tira onda de uma coisa que eu não sou. Hoje, eu não finjo mais nada. Bebo várias cervas sem ressaca moral no dia seguinte; sem me culpar de nada. Fiz, tá feito. Tentei comer uma amiga, não deu, sem problemas. Não suporto Dorival Caymmi e Ariano Suassuna e não tô nem aí para as críticas. Odeio literatura de cordel e repentistas (coisinhas insuportáveis) e nem por isso deixo de ser nordestino e admirar minha terra, minha gente. Jim Jarmusch é o meu cineasta preferido e gente como Pelé e Ayrton Senna não me dizem nada.

Para Jack Kerouac o que importa é o primeiro pensamento. É por isso que eu não retoco meus textos. Meu mestre, o maior escritor que esse planeta viu nascer, falou, tá falado. O mais terno do mundo. Um anjo que sofreu neste mundo cão por não compreender a vida burra e escrota que a humanidade carrega nas costas.

Comprei na semana passada Amor nos tempos de fúria, romance do Lawrence Ferlinghetti escrito em 1988, mas só agora lançado no Brasil. Ele está ali ao lado da vela que acendi para o rei dos beats. Vou começar a devorá-lo, já.

Até a próxima.

P.S.: As músicas do Lulu Santos e Eduardo Duzek marcaram esta época de tiração de onda de surfista paquerador das gatinhas.
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