quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Da série Livro de cabeceira.


Samuel Beckett - Primeiro amor.

"Associo, com ou sem razão, o meu casamento à morte...".

"As coisas devem ter se passado de modo completamente diverso, mas que importa, a maneira como as coisas se passam, desde que se passem? E todos aqueles lábios que tinham me beijado, aqueles corações que tinham ma amado (é mesmo com o coração que se ama, não é, ou será que estou confundindo com outra coisa?), aquelas mãos que tinham brincado com as minhas e aqueles espíritos que quase tinham me possuído".

"Ela começou a se despir. Quando não sabem mais o que fazer, elas se despem, e é decerto o melhor que têm a fazer. Ela tirou tudo com uma lentidão capaz de irritar um elefante, exceto as meias, destinadas sem dúvida a levar minha excitação ao auge".

Até a próxima.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Nico sobre sua saída do Velvet Underground.


"Lou precisava de mim no começo porque não tinha confiança para estar à frente do palco", Nico reflete. "Mas ele ganhou confiança rapidamente. E não fui só eu que se tornou dispensável. Ele queria John [Cale] fora, queria Andy fora. O Velvet Underground era a banda dele, mas, se você ouvir os discos que gravaram depois que saí, e depois que John [em 1968, após White Light/White Heat] e Andy também saíram... não são o Velvet Underground. São Lou e um grupo de músicos que não ousavam enfrentá-lo, que deixavam ele fazer o que quisesse. Além disso, muitas das músicas que ele estava compondo eram bem desanimadas. John e Andy nunca teriam permitido isso".

Do livro "Dangerous Glitter - Como David Bowie, Lou Reed e Iggy Pop foram ao inferno e salvaram o rock 'n' roll" de Dave Thompson. 

* * * 

Esse livro que eu tô lendo tá servindo mais pra me lembrar de histórias como essa do que pra informar. O que eu tô mais curtindo são as fotos. Por enquanto, tem sido pouco esclarecedor. Mas que fique claro uma coisa: as histórias são ótimas.

Até a próxima.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Obra-Prima.


Nau - Nau (1987).

Calor do inferno. Vou até o posto de gasolina mais próximo comprar cerveja. Aqui no litoral do Paraná pouca coisa me faz sair de casa. Comprar cerveja é uma delas. As mulheres daqui não me chamam atenção -- exceto a mulher do vizinho de minha mãe. Acontece que o cara é gente boa, então eu faço de conta que ela não tá ali. Mesmo quando ela me dá "boa tarde", sorrindo, eu faço de conta que ela não tá ali -- eu vivo fazendo de conta, minha válvula de escape. De volta do posto de gasolina com as cervas embaixo do braço, abro a primeira. Tá "choca". Minha mãe me pergunta o que faz uma cerveja ficar "choca"; eu não sei o motivo -- e não vou procurar no Google. O meu humor piora quando o clima esquenta. Daí que me lembrei do disco da Nau, o primeiro e único, gravado em 1987 com Vange Leonel no vocal. Puta disco de rock. Neste exato momento a bolinha vermelha pisca lá em cima. É uma mensagem. Tomara que não seja alguém tentando encher meu saco. A cerva tá no ponto. A verdinha. E Vange cantando como se estivesse do meu lado: "A vida passa num piscar de olhos...". Eu bem sei, Vange. Este disco, conciso, denso, genial, só encontra páreo quando penso no primeiro do Barão Vermelho ou no primeiro da Fábrica de Animais, a melhor banda de rock do país da atualidade. Na minha opinião. O que é muito, ao menos, pra mim. Eu não tô nem aí pras bandas novas. São desprovidas de talento e qualquer uma pode lançar um disco novo. É claro que há exceções. Sempre há. E a The Gins! tem feito a diferença ao lado da Fábrica. São estilos diferentes. Cada um na sua. O que eu queria dizer quando comecei a escrever esse texto é que aqui tá fazendo um calor do inferno, e o disco Nau, em companhia de umas cervas geladas e da presença de minha mãe, tá fazendo a diferença. E que você pode dedicar um pouco do seu tempo pra ouvi-lo. Uma obra-prima, sem dúvida alguma. Rock da mais alta estirpe.

Até a próxima.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Acendendo uma vela para John Fante e outra para Jack Kerouac.


Escrevi este texto em 2012 e postei no Facebook. Este é um dos escolhidos pro meu livro "18 de maio, quanto tens por dizer..." que agora trago pra cá. Quanto ao lançamento do livro, mantenha-se vivo.

Ontem Betty Blue bebeu conhaque na minha garrafinha ao qual batizei de velhinho safado naquele bar que não fecha com a nossa presença. Até que não enchemos tanto a paciência. A rua nos aguardava sob a sensível lente do nosso querido Sugar. A carinha que a Betty Blue fez ao dar uma golada no meu conhaque me deu pena. Ela não merecia isso. Olhando minha foto quando criança vejo um misto de candura e melancolia que parece não acabar mais. A candura deve ter escorrido pelos cantos dos meus olhos tristes; já a melancolia, é eterna. Minha carinha de bebê é. Não sou feliz e acredito que naquela época minha mãe e queridos familiares devem ter sonhado e desejado o melhor pra mim, mas eles não vão gostar de saber que eu não sou. Meu pai deve tremer onde estiver nesse momento, alguém vai ler isso aqui e comunicar à minha mãe e ela vai ler e me ligar chorando como é de costume nos fins de noite quando estamos bêbados em sintonia afinada -- é quando a solidão e a melancolia se misturam que essas coisas vêm à tona. Essa trilha sonora não tá me agradando agora. Karen, por favor. Vou trocar de disco. Ah, o matador Cohen com suas canções dolorosas me fará melhor nesta tarde fria aqui na selva de pedras no sétimo andar de um prédio velho, quase em ruínas do centro, do velho centro da cidade. Vou acender uma vela para Jack Kerouac daqui a pouco e pedir a Deus pro bem da sua alma. Acenderei outra pra John Fante. Os meus herois não merecem passar pelo que eu tô passando agora. É doloroso ficar aqui sozinho no sétimo andar de um prédio quase em ruínas. O ‘quase’ é um acalanto. Pôxa, se é pra sofrer, porque não em outra dimensão? Erga-me do solo, meu Deus. Não me deixe aqui. Não me abandone. Não esqueça de mim. Ninguém acende uma vela pra mim, mas eu vou acender uma para os meus ídolos. Alguém disse para o Willer, meu mestre, que ele precisa humanizar seus personagens. Nessa hora me lembrei que os meus são humanos até demais, humanos até mais do que eu. 

Famous blue raincoat é de doer. Quer canção mais triste do que essa? Foi ao som dessa canção que escrevi no dia das mães um poema pra vovó Dai. Neste dia da criança sinto a mesma sensação. Sensação essa de que só quem sabe é quem passa longe da felicidade.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dois poemas de Charles Bukowski.




"A teoria da classe ociosa" 

A melhor coisa a respeito das mulheres velhas é que tudo o que elas querem de você são as coisas simples.

Eu costumava alimentar as galinhas da minha senhoria, Sra. McCarthy. 

E em seguida no canto onde estava o café da manhã ela me servia meio copo de whiskey. 

Ficávamos sentados ali enquanto o sol da manhã atravessava as cortinas. 

Sra. McCarthy uma vez me perguntou, 
"Você é um jovem rapaz, porque não arruma um trabalho"?

Apontei com a cabeça para as galinhas e disse, 
"Eu tenho um".

"Senhor, rapaz", ela disse,
"Você não serve pra nada!"

Sorri. 
Elogios inesperados como aquele 
me ajudavam a continuar.


"Você sabe quem é melhor" 

Está quente aqui
Há um teto sobre a minha cabeça e um rádio e um bom vinho branco. 

Está chovendo e eu perdi no hipódromo hoje. 

Ontem eu perdi $680. 
Hoje eu perdi $750.

Madeline
nós brigamos e brigamos. 

mas amanhã eu vou ganhar, então
pegue essa sua calcinha do chão
dele
e volte 
pra mim.

Tradução: Jão Moonshine.