terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Acendendo uma vela para John Fante e outra para Jack Kerouac.


Escrevi este texto em 2012 e postei no Facebook. Este é um dos escolhidos pro meu livro "18 de maio, quanto tens por dizer..." que agora trago pra cá. Quanto ao lançamento do livro, mantenha-se vivo.

Ontem Betty Blue bebeu conhaque na minha garrafinha ao qual batizei de velhinho safado naquele bar que não fecha com a nossa presença. Até que não enchemos tanto a paciência. A rua nos aguardava sob a sensível lente do nosso querido Sugar. A carinha que a Betty Blue fez ao dar uma golada no meu conhaque me deu pena. Ela não merecia isso. Olhando minha foto quando criança vejo um misto de candura e melancolia que parece não acabar mais. A candura deve ter escorrido pelos cantos dos meus olhos tristes; já a melancolia, é eterna. Minha carinha de bebê é. Não sou feliz e acredito que naquela época minha mãe e queridos familiares devem ter sonhado e desejado o melhor pra mim, mas eles não vão gostar de saber que eu não sou. Meu pai deve tremer onde estiver nesse momento, alguém vai ler isso aqui e comunicar à minha mãe e ela vai ler e me ligar chorando como é de costume nos fins de noite quando estamos bêbados em sintonia afinada -- é quando a solidão e a melancolia se misturam que essas coisas vêm à tona. Essa trilha sonora não tá me agradando agora. Karen, por favor. Vou trocar de disco. Ah, o matador Cohen com suas canções dolorosas me fará melhor nesta tarde fria aqui na selva de pedras no sétimo andar de um prédio velho, quase em ruínas do centro, do velho centro da cidade. Vou acender uma vela para Jack Kerouac daqui a pouco e pedir a Deus pro bem da sua alma. Acenderei outra pra John Fante. Os meus herois não merecem passar pelo que eu tô passando agora. É doloroso ficar aqui sozinho no sétimo andar de um prédio quase em ruínas. O ‘quase’ é um acalanto. Pôxa, se é pra sofrer, porque não em outra dimensão? Erga-me do solo, meu Deus. Não me deixe aqui. Não me abandone. Não esqueça de mim. Ninguém acende uma vela pra mim, mas eu vou acender uma para os meus ídolos. Alguém disse para o Willer, meu mestre, que ele precisa humanizar seus personagens. Nessa hora me lembrei que os meus são humanos até demais, humanos até mais do que eu. 

Famous blue raincoat é de doer. Quer canção mais triste do que essa? Foi ao som dessa canção que escrevi no dia das mães um poema pra vovó Dai. Neste dia da criança sinto a mesma sensação. Sensação essa de que só quem sabe é quem passa longe da felicidade.

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