domingo, 5 de outubro de 2014

Trilha sonora para quando a cerva subir pro juízo, ou o que sobrou dele.

Eu sempre tive o hábito de passar os domingos em casa. Nunca gostei de visitar ninguém, nem de ser visitado. Principalmente quando é visita surpresa. Nunca bata em minha porta e venha com essa: "Surpresa, Buenas!". Por favor. Meu humor, que não é dos melhores, vai piorar. Não gosto de ir à praia (aliás, gostava quando eu era criança e minha mãe levava a gente - meu irmão e eu - pra pescar no Farol da Barra). Nem ao shopping. Praia, só no fim de tarde, quando o sol está prestes a cair fora. Assim que eu gosto. De beber minha cerva, sossegado, em companhia de quem vale a pena. Então eu gosto de ficar em casa assistindo filmes e ouvindo música bebendo minhas cervas. Ou bourbon. Depende do tempo lá fora. O que faz a diferença aqui dentro. Depende. Tudo depende. Dos discos que eu gosto de ouvir quando a cerva sobe pro juízo, ou o que sobrou dele, é o primeiro do Barão Vermelho -- um disco de rock tosco gravado em quatro canais. Ou será oito? Não me lembro. É nesse que tem "Down em mim", "Billy negão", "Por aí" e "Todo amor que houver nessa vida", entre outras loucuras com Caju berrando poesia crua. Impactante. Muito foda esse "filhinho-de-papai da zona sul". É assim que os detratores de Cazuza o chamam para denegrir a sua imagem. Seu talento. Deve ser mesmo um incômodo pros babacas ser rico, rocker e poeta talentoso com muita grana pra gastar. Nunca entendi por que o poeta tem que ser o pobre fodido de bolso. O que vaga por aí trabalhando em troca de comida e bebida. De um lugar pra dormir (essas coisas que falam sobre o poeta marginal). Um poeta marginal pode morar na cobertura do Leblon, frequentar grandes festas nos endereços mais quentes e não ser babaca como muitos artistas que é só blá blá blá. Só discurso. O primeiro disco do Barão é uma obra-prima. Isto se deve em boa parte ao talentoso poeta Caju e seu canto escrachado. Mais um "filhinho-de-papai" a deixar sua marca indelével em nossas vidas. Em nossa história. Sempre tardão da noite esse disco toca em meus domingos encharcado de cervas e amor. Muito amor.

P.S.: Este texto foi escrito e postado aqui e no facebook em 2.012.

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