quarta-feira, 6 de maio de 2015

Orelha do "18 de maio, quanto tens por dizer...".

(Lucas Mayor e eu. Foto: Mário Bortolotto. Na Mercearia São Pedro.SP, 2015).

Pedi ao meu amigo Lucas Mayor pra que ele escrevesse a orelha do meu livro "18 de maio, quanto tens por dizer...". Ele escreveu um poema. Um belo poema.

 ESCREVENDO COM O CANTO DA BOCA

 Existem sujeitos que escrevem nos lugares mais inóspitos possíveis. É uma tentativa de fazer com que a experiência da escrita seja ainda mais real. Outros sofrem deliberadamente a fim de levantarem material. Escritores são pessoas estranhas. Existe o mundo do papel, da ficção, e existe o mundo real, esse aí que a gente suporta e precisa viver nele. Um escritor trabalha nesse limiar, saltando de lá pra cá como um ginasta se exercitando numa barra transversal. “Levei a vida toda escrevendo esses textos”, ele comenta. Faz sentido. 18 de maio, quanto tens por dizer... é uma carta longa endereçada a um destinatário que atende pelo nome do próprio autor. Philip Roth diz que “é preciso colocar a história no papel para ver o que acontece”. Aqui o trajeto é parecido. Os textos vão conversando entre si, e ao fim você se dá conta de que ao colocar as histórias no papel, a vida dentro do texto, o que emerge é outra coisa. Uma outra vida, decerto. Uma vida pautada e mediada pela palavra (por lembranças, pequenas narrativas e ajustes que só a imaginação permite). Escrever como que pra justificar o que foi feito de si. A sensação é de pura cumplicidade. Eu me peguei rindo em várias passagens, inicialmente, e depois fui tocado por uma inextinguível dose de desamparo, que é uma das características mais evidentes desta breve coletânea. O livro que você tem em mãos é como um dirigível em chamas num céu azul royal observado por um garoto deitado na grama apontando pro alto com uma pistola de borracha. O desamparo costurado com a linha da serenidade dos que há muito tempo sacaram que a felicidade é só o nome de um motel vagabundo no centro de uma cidadezinha barulhenta e abafada. 18 de maio, quanto tens por dizer... foi escrito com o canto da boca amortecido por uma dor de dente que nunca passa. 

Bom passeio! 

Lucas Mayor.
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