domingo, 17 de maio de 2015

Prefácio do "18 de maio, quanto tens por dizer...".

(Com o Marião no Planeta's. Foto: Lucas Mayor).

Quando resolvi lançar o meu livro "18 de maio, quanto tens por dizer...", eu já sabia quem ia escrever o prefácio. Ninguém faria melhor.

O CARA QUE TEM A MANHA

Falei uma vez pro Buenas que na lápide dele vai estar escrito: "Esse cara tinha a manha". É um cara que vive de maneira espertamente baiana (ou seja, sem pressa). Eu brinco com ele dizendo que ao entrar num motel com uma garota a primeira coisa que ele deve dizer de maneira muito malemolente é: "Tem teeempoo". Assim mesmo prolongando as vogais e exagerando no sotaque para não deixar dúvidas. Os versos de seu conterrâneo, o poeta Wally Salomão lhe traduzem à perfeição: "eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus". Buenas vive de maneira descompromissada com o que chamam de destino . Não tá nem aí para o que esse senhor reserva pra ele. Lendo esse livro vocês irão conhecer o cara que acende velas para John Fante e para Kerouac e que passa longe de "salões de beleza onde homens fazem as unhas bebendo Martini com cereja para enfeitar o copo". O cara que prometeu tatuar uma coruja no braço e que remetem diretamente a poesia dos derrotados ("Beatriz") ou a atrizes-cantoras-musas eternizadas ("Jane Birkin"). Buenas me passa a impressão de ser aquele tipo de sujeito que veio ao mundo para escrever, ouvir músicas e amar as mulheres. Enfim, o poeta com vocação para gauche que jamais sonhou em deixar suas digitais em algum troféu da tal maratona da prosperidade que a maioria das pessoas se dispõe a correr assim que abrem os olhos de manhã. Buenas vai mesmo é parar em algum bar (seja em Lisboa, Salvador ou São Paulo - em Londres não, já que não deixaram ele entrar lá) e beber sua cerva artesanal sozinho num canto do balcão. Buenas é o cara que está sempre de férias. Eu disse que ele tem a manha. Quando não está escrevendo, amando as mulheres ou bebendo com os amigos, passa o seu tempo livre trabalhando na Buenas Bookstore que é uma pequena livraria que ele gerencia no Teatro Cemitério de Automóveis e onde suas vítimas despencam afoitas a fim de adquirirem aqueles títulos de livros que eles não conseguem encontrar muito facilmente, mesmo porque a maioria dessas pessoas tem trabalhos que as impedem de conseguir um tempo livre para garimparem nos sebos atrás desses títulos. Buenas tem todo o tempo livre e pode fazer esse inestimável serviço de utilidade pública e o faz com desenvoltura flanando pela cidade assobiando alguma canção de Ian Curtis. Durante a madrugada ele costuma ficar se divertindo colocando músicas para os amigos boêmios do bar Cemitério de Automóveis. Buenas é um grande conhecedor de música e nesses momentos ele se transforma no DJ Buenas e com os fones ancorados nos ouvidos adentra o outro mundo que ele escolheu. O mundo dos caras que não se engajam, dos que não se alistam. Buenas é um desertor. Quando a guerra começou, ele simplesmente levantou da trincheira e foi andando sossegado em direção contrária às bombas. E ele não vai voltar. Ele disse que não tem nada a ver com isso. Mas não acredito que alguém vá pedir a cabeça dele. Nós todos gostamos de vê-lo por aqui. E ele sabe disso. Acho que eu já disse que ele tem a manha.

Mário Bortolotto

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